Caminhos

“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” Arthur Schopenhauer. Revisão Textual de Rosi Gotz.

2.11.09

Lei de Murphy em ação.

Lei de Murphy em ação.

Às vezes, mesmo que tenhamos feito tudo que julgamos correto para que algo aconteça dentro da conformidade, o resultado se torna algo totalmente danoso. São situações do dia-a-dia em que é difícil encontrar uma explicação lógica por, talvez, serem incompreensíveis para a maioria das pessoas, apesar de ocorrerem com muita freqüência. Diante do insucesso em remediar a situação, quem sabe a melhor solução seja apenas deixar acontecer e seguir em frente, pois, às vezes, quanto mais se mexe, remexe na situação pior ela fica e mais confusão e aborrecimentos nos causa.
Chamo isso de lei de Murphy* em ação, embora resista em admitir que isso possa ser verdade, não posso negar que fatos indesejáveis acontecem sucessivamente trazendo conseqüências desastrosas, apesar das tentativas em contê-las. Não gosto nem de pensar nessa lei, porém é difícil negar que, apesar de nos esforçarmos para que tudo tenha bom êxito, nem sempre conseguimos reverter à situação. Porém, sempre vale a pena procurar remediar os fatos e, por pior que o saldo final possa parecer, sempre sobra o aprendizado. Este aprendizado é extremamente importante, e possivelmente de tão importante e necessário, utiliza-se da lei de Murphy, para gerar as conseqüências que precisamos para aprender, porém é preocupante que raramente isso seja percebido e assimilado.
Aprendemos por inúmeras maneiras, uma vez que existem várias formas de transmitir e assimilar conhecimento, porém, nada é eficiente se não estivermos dispostos a aprender. No entanto, não podemos esquecer que aprender exige sacrifícios, renúncias que na maioria das vezes nos causam dor. Aliás, os aprendizados mais importantes na vida de uma pessoa ocorrem através da dor ou do amor, mas parece que a preferência geral é pela dor, não por masoquismo, mas por falta de percepção das oportunidades que o amor oferece. Esta equivocada “escolha” pela dor ocorre porque a porta que dá acesso ao longo corredor do amor tem a pintura desgastada pelas batalhas da vida e não parece tão atrativa quanto a outra porta que esta maquiada com as corres dos sonhos e ainda parece dar acesso a um atalho que nos conduz imediatamente à felicidade.
A opção baseada na aparência e no raciocínio imediatista nos assegura escolher a porta do atalho, mas logo nos primeiros passos percebemos que esta se reveste de um tortuoso caminho de dor, pois a verdadeira razão da vida é tornar-nos um ser melhor a cada dia, através do enfrentamento das adversidades que ela impõe, seja de ordem material, psíquica ou espiritual. O caminho a percorrer não tem atalhos nem armadilhas, pois Deus não é um sádico que nos prendeu num labirinto, Ele é sábio e nos proporciona experiências para crescermos e sempre que necessário nos submete a infinitas seqüências, até conseguirmos superar a adversidade e assimilarmos o aprendizado. Para esta caminhada dispomos da livre escolha e das características pessoais, as quais podem ser aperfeiçoadas ou adquiridas.
Assim, a revolta e a indignação diante de certos acontecimentos em nada contribuem, uma vez que imprevistos ocorrem para nos despertar e aperfeiçoar. A não aceitação apenas nos colocará novamente diante de uma sequência indesejada que só termina após efetuarmos o aprendizado. Essa enorme dor é desnecessária e perdurara durante todo o processo, mas torna-se gratificante e recompensadora assim que compreendemos, aprendemos o que necessitamos para o próprio desenvolvimento. Despertar para a dor desnecessária, fruto da persistência negativa, do orgulho, da vaidade e teimosia é algo que não tem nada a ver com capacidade intelectual, embora possa ser uma dedução lógica, mas é algo relacionado a autopercepção, a consciência de si mesmo, isto é, ao próprio desenvolvimento. Este processo é individual e solitário, no entanto só pode ser alcançado com a prática da caridade, da solidariedade e das interações com o próximo.
A verdade é que não somos vitimas de nada e nem de ninguém, somos totalmente responsáveis pelo nosso destino que é a felicidade, porém esta, segue etapas sequenciais que são pré-requisitos para que possamos desfrutá-la, afinal seja qual for o “reino dos céus" estará acessível a todos. O que nos diferencia é a distancia que ainda temos a percorrer.
Minhas batalhas com a lei de Murphy, ainda são freqüentes, mas estão cada vez mais curtas, uma vez que já acumulei experiência e força suficiente para enfrentar cada obstáculo com coragem e com alguma ponta de gratidão, pois me sinto mais feliz a cada vitória e um pouco mais distante da dor. É um processo de aprendizagem e crescimento lento, mas reconfortante e compensador, do qual, não podemos nos omitir mesmo diante de repetidas adversidades. Devemos persistir confiantes porque temos uma caminhada a fazer e um papel a desempenhar. Boa semana.
                                   
        *Lei de Murphy: "se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará”.
 

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18.10.09

Intolerância.

Intolerância.
 
Depois do terceiro chopinho a conversa fica mais leve e a mente se encarrega de voar, como a minha, que há alguns dias atrás foi parar lá na escola primária onde estudei. Na ocasião lembrei de um professor que lecionava religião cujo nome não recordo, mas fisicamente ainda poderia descrevê-lo como feio, magro, baixinho e com um enorme e bom coração, maior até que o seu próprio corpo. Ele tentava colocar nas nossas cabeças, nas dos rebeldes em especial, alguma coisa de religião. Tarefa nada fácil, pois na minha época ninguém reprovava nessa disciplina, porque éramos todos filhos de famílias extremamente católicas e o que nos ensinavam em casa ia muito além do conteúdo da aula.
Mas, retomando o assunto intolerância, aquele humilde professor de religião, quase trinta anos depois, surgiu na minha cabeça para me fazer perceber que sou intolerante desde aquele tempo. Lembrei claramente que não pude suportar uma infeliz colocação do professor, quando tentou nos mostrar a importância de estarmos sempre na graça de Deus, que dizia mais ou menos assim: “temos que estar sempre livres de qualquer pecado, pois imaginem se um dia acordarmos mortos, não haverá mais tempo para perdoar ou sermos perdoados”.
Diante dessas palavras de “acordarmos mortos” não agüentei e soltei uma baita gargalhada e repeti debochadamente várias vezes as palavras, acordar morto, acordar morto, que o pequeno professor se transformou num gigante expulsando-me da sala no mesmo instante e, é claro, no final do ano fui o único aluno que ficou com recuperação nessa disciplina, aliás, desconfio que ate hoje eu tenha sido o único ou certamente o primeiro. Esta lembrança possivelmente seja o fato mais marcante da origem da minha intolerância que, apesar de acreditar que esteja mais civilizada, ainda me incomoda em diversas situações.
A intolerância que é companheira do preconceito e da discriminação é algo inaceitável, porém existem ocasiões em que um pouco de paciência e compreensão são suficientes para resolver qualquer situação com calma e tranqüilidade, ou seja, de forma civilizada. Parece ser algo fácil de aceitar, mas na prática é algo muito difícil de ser aceita, compreendida e assimilada, basta observarmos o comportamento diante de uma fila que não anda ou de um atendente mal preparado.
No entanto, sem querer ser muito intolerante, mas já reconhecendo firmes traços deste mal, no sentido de impaciente, não consigo admitir qualquer intolerância quando se trata de diferenças de pensamentos e crenças. Neste sentido, certamente não sou intolerante, mas por outro lado não consigo tolerar a minha cunhada, por exemplo, que uma noite dessas, às 2h da madrugada me acordou com um telefonema perguntando se eu estava dormindo. Bem, no auge da minha intolerância, só podia responder: SIM, só estou te respondendo porque sou sonâmbulo. Hora, é óbvio! Se estou falando ao telefone é porque estou acordado, o que não significa que eu estivesse acordado antes do indesejável telefone tocar. Essa minha impaciente tolerância muitas vezes se manifesta sem eu mesmo perceber, o que me deixa profundamente irritado, quando em algumas situações veste-se de arrogância, presunção e insolência. Tudo isso, naturalmente, me remete a uma profunda decepção, quanto ao meu comportamento e desenvolvimento moral, mas persisto fortemente no propósito de me tornar mais compreensivo e paciente diante destas situações.
Sei que poderia ser muito mais difícil avançar se a minha intolerância fosse no campo das idéias ou da religião, algo que torna, os que a possuem pessoas extremante equivocadas em relação à individualidade e liberdade humana. O tênue traço que separa a discussão respeitosa da intolerância é a emoção, o que faz com que muitas pessoas, apesar de serem tolerantes com relação à política, sexo e religião, são extremante intolerantes com uma idéia qualquer de um familiar, amigo ou outro alguém.
Expresso essa minha falha de personalidade para comprometer-me publicamente em melhorar essa deficiência, mas principalmente para que possamos refletir e avaliar a infinidade de comportamentos indevidos que diariamente praticamos com os que nos cercam. São atitudes e pensamentos equivocados que manifestamos e silenciosamente vão se fortalecendo em nosso comportamento, impedindo que novas atitudes e ideias se manifestem, para que seja possível transformar velhas crenças em ações mais amplas, capazes de tornar a vida mais próspera e feliz.
A discussão sobre a intolerância é ampla e facilmente segue o caminho que aponta as falhas alheias, no entanto o mais difícil e o melhor a fazer é reconhecer e aprender a lidar com a própria intolerância. Boa semana. 

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3.10.09

Gente fina.

 

Gente fina.                                                                           

            Muitas vezes sem saber o porquê, uma música qualquer nos invade e passamos a cantarolá-la o dia inteiro. Agora mesmo, enquanto tento me concentrar para escrever algo produtivo, tenho minha atenção desviada para os versos da música de Lulu Santos: “eu vejo um novo começo de era / de gente fina, elegante e sincera /com habilidade pra dizer mais sim / do que não…”.
            Diante disso, decidi abandonar o assunto que pretendia abordar e aceitei estes versos como um “sinal” para escrever algo mais leve, mais primaveril, ou melhor, mais gente fina, elegante e sincera, fiquei imaginando como seria uma pessoa gente fina e se conheço alguma. Embora seja muito comum utilizamos a expressão “gente fina” para qualificarmos uma pessoa, aqui, me restrinjo àquelas pessoas que só conseguimos ver boas qualidades e comportamentos adequados em qualquer situação.
            O verdadeiro gente fina vai muito além de ser o cara: ele é um uma espéciede ser superior que domina a arte de engolir sapos sem precisar digeri-los; não é prepotente ou arrogante sem ser submisso e defende-se com precisos “tapas de luva”; adapta-se ao ambiente e deixa todos à vontade em qualquer lugar.Ele transgride de modo a não agredir porque opina sem julgar; é honesto; sincero; amável, chegando às vezes, a provocar dúvida nos mais desconfiados, ou seja, classificá-lo é algo extremamente difícil e, por ser tão especial, queremos tê-lo por perto.
Essas pessoas sem dúvida, são raras e admiráveis, portanto muito imitadas requerendo, inclusive, um certo cuidado, uma vez que existem boas falsificações. Não sei se essas pessoas nascem com esse dom, chamo de dom porque me parece ser mais um presente divino do que uma qualidade adquirida, apesar de não ter qualquer dúvida que essa é uma qualidade que pode ser adquirida e aperfeiçoada constantemente.
            As pessoas gente fina têm facilidade em nos transmitir entusiasmo, motivação e bem estar, isso por si só já as torna especiais, visto que essas são preciosidades muito escassas nos dias atuais. Mas, para falar o mínimo dessas pessoas é preciso ir além, talvez tão além que somente um gente fina poderia descrever e, neste aspecto não sou qualificado para fazê-lo, mas me atrevo a imaginar o tamanho do esforço que estes indivíduos fizeram para alcançar esse nível de comportamento, pois não deve ser somente dom divino. Ser gente fina em alguns momentos, dias, ou messes é algo possível para qualquer um, mas o tempo todo, sete dias por semana é algo realmente para poucos.
            Sei que para alcançar uma meta, transpor um obstáculo é preciso persistência, determinação e muito exercício. Quando o ideal ainda esta longe de ser alcançado é fundamental praticar com mais intensidade, mesmo que por apenas algumas horas por dia, pois é através da repetição que se aperfeiçoa a rotina e se incorpora um habito. Este por sua vez, é o principio dos atletas de ponta e dos vencedores que pode ser sintetizado pela seguinte frase: sem dedicação não há vitória.
            Desenvolver atitudes mais positivas é o alicerce para enfrentar os novos tempos, nos quais, não haverá espaço para negativismos de qualquer natureza. Precisamos nos preparar para os novos tempos de mais alegria, prosperidade e paz, onde a solidariedade e o amor ditem o caminho a percorrer. É neste espírito que os verdadeiros gente fina vivem, pois já compreenderam e por isso se prepararam para viver com mais harmonia entre todos os seres vivos. Estas pessoas captaram, talvez até de forma um pouco inconsciente, que a essência humana é de harmonia, paz e tranqüilidade e os eventuais desequilíbrios são apenas exercícios para a evolução. No novo mundo que se aproxima e, por favor, não entendam isso como uma profecia, mas apenas uma constatação de que a vida evolui e, portanto algo de novo virá. E por ser uma pessoa que acredita na justiça divina, tenho absoluta convicção de que basta sermos merecedores que uma vida nova, melhor e mais feliz se abrirá a nossa frente.
            Exercitando o talvez, me permito associar a música tempos modernos do Lulu Santoscomo uma mensagem para que cada um possa se permitir a mudar, a deixar-se levar pelo amor, pela paixão de viver e descobrir que somos todos um só. Tudo o que fazemos repercute no universo. O amor se liga ao amor, a inveja se liga na inveja e assim vai se propagando conforme escolhermos qual a freqüência que queremos nos sintonizar, qual energia captar, enfim, tudo isso é uma opção importante que deve ser feita, mas antes é preciso definir o que realmente se quer, para então podermos direcionar a antena e os esforços na direção certa.
Gente fina, tempos modernos e evolução são questões ligadas, embora difíceis de definir, mas é fundamental não associá-las a desesperança e negatividades para não repetirmos uma triste canção, cuja melodia além de duvidosa da sinais de estar nos últimos acordes. Aprenda a dizer mais sim do que não, espontaneamente, e descubra a alegria de um gente fina. Boa semana.

Pauletto J A

criado por Jair Antonio Pauletto    19:35 — Arquivado em: Artigos, Crônicas

24.9.09

Utilidades e Futilidades.

 

Utilidades e Futilidades.                                                                                            
 
Às vezes fico pensando como seria se pudéssemos classificar todas as coisas do mundo em somente dois critérios: úteis e inúteis. À vista disso, como seria o saldo das úteis? Certamente se levássemos em conta somente às criações Divinas, o grupo dos úteis levaria vantagem de 100%. Todavia, imagino que quando incluirmos todas as invenções, criações humanas, até mesmo as que são realmente úteis, o resultado ainda seria inferior ao das inutilidades. Pois, por mais subjetivo que possa ser este critério, tenho certeza que podemos afirmar que o homem produz muitas inutilidades, sejam elas materiais ou não. Aliás, as não físicas, como as psicológicas ou culturais, talvez sejam percentualmente superiores a todas as inutilidades materiais.
Ainda seguindo nesse raciocínio, devemos levar em conta as questões prejudiciais ao planeta, como a poluição e devastação dos recursos naturais para sua produção, mas principalmente os danos ao crescimento do ser humano como ser em evolução. Neste aspecto, são as questões subjetivas de manipulação, submissão e exploração que mais nos prejudicam. Esse meu excêntrico pensamento de classificar as coisas do mundo em somente dois grupos é altamente vulnerável nas questões da subjetividade dos critérios e, obviamente, se algum homem pudesse fazê-lo seria apenas seu modo de ver, sentir e avaliar as coisas, portanto, inválido para alguns e no máximo aceitável para muitos.
Imagino que se for uma pessoa sensível a executar a tarefa, as flores seriam classificadas como úteis, as guerras como inúteis, porém, se for alguém mais bruto a ordem seria inversa e ainda tentaria justificar-se perguntando indignado, para que sevem as flores afinal? Uma rocha pode ser classificada como algo inútil por uma consciência pouco aberta, ou perfeitamente útil por alguém que já tenha despertado para as potencialidades de todas as coisas existentes, uma vez que uma simples rocha, ao encontrar as condições ideais, pode transformar-se em um belo diamante ou numa pedra preciosa qualquer, obviamente que mesmo bruta pode servir de proteção e abrigo, mas tudo depende de como escolhemos, ou melhor, se tivermos consciência de sua existência. A avaliação de cada acontecimento da vida é inteiramente individual e é totalmente dependente do nível de consciência individual. Esta, por sua vez, desperta de forma única em cada ser e expande-se na proporção do esforço e dedicação que direcionamos para isso.
Nas questões mais humanas, por exemplo, o exercício seria ainda mais difícil. Imaginem classificar a utilidade de um bate-papo entre amigos no botequim da esquina, após de algumas rodadas de chope? Com certeza não passaria sequer perto de assuntos profissionais, de relacionamentos e muitas outras questões, teoricamente consideradas importantes, isto é, úteis. No entanto, o fato de “jogar um papo fora”, é na maioria das vezes uma grande terapia de reequilíbrio e renovação de forças para encarar os desafios da vida, além de ser uma necessidade humana, uma vez que nós somos seres sociais por natureza.
Identificar as coisas, pessoalmente úteis e inúteis, é um exercício para a felicidade, mas se não for feito conscientemente pode nos empurrar para vícios e, se isso acontecer, entra em ação outros instintos e sentimentos que servirão de argumentos para justificar qualquer ação inadequada. Essa é apenas uma das razões para despertarmos para o desenvolvimento da consciência, e para os que já despertaram iniciarem um novo processo de expansão, visando ampliar sua contribuição para a construção de um novo mundo. Conhecer as próprias necessidades é uma das formas fundamentais para selecionar o que é útil em nossas vidas, pois é desta seleção que construímos nossa felicidade e justamente por se tratar da própria felicidade deve ser feita em conformidade com as regras internas, a lei da consciência, fugindo dos auto-enganos que nos conduzem a atalhos infelizes.
Assim mesmo, muitas vezes, a classificação parece ter sido feita de forma errada, mas na realidade trata-se apenas de experiências necessárias ao aprendizado, a ampliação da consciência, ao autoconhecimento. No entanto, nestas ocasiões, é fundamental manter-se alerta para as reações inadequadas e quando for necessário expressar sentimentos, seja de raiva, indignação, vergonha ou medo deve-se procurar a forma equilibrada. 
Este é um texto proposto para exercitar a escolha entre o útil e o inútil em nossas vidas, embora tenha sido escrito com a intenção de ser útil. Alguns possivelmente o classificarão como inútil o que me é perfeitamente compreensível, visto que todos sabemos que não basta apenas à intenção, é preciso ação e neste caso, conteúdo. Todavia, seja qual for o posto que me atribuíram terão que escolher e principalmente avaliar sua utilidade, mesmo que eventualmente não desejem fazê-lo. Boa semana.
criado por Jair Antonio Pauletto    23:08 — Arquivado em: Artigos, Crônicas

20.9.09

Tradições e Mudanças.

Tradições e Mudanças.

Foi-se o tempo em que o chapéu era parte obrigatória da indumentária de um homem elegante. Esse e outros costumes foram se perdendo com o tempo, influenciados pelo “evolucionismo” da indústria da moda. Hoje, por exemplo, o chapeu é um acessório raro de ser visto em nosso cotidiano, embora, muito útil, especialmente para proteção do frio, da chuva do inverno, ou até no verão para defesa dos temidos raios ultravioleta. Eu, mesmo alheio a qualquer um destes motivos, recentemente resolvi comprar um chapeu, não desses tradicionais de uso urbano, raramente vistos na cabeça de algum senhor mais velho, tampouco daquele tipo moderno, estilo cowboy, que os peões exibem por ai. O meu chapeu é do modelo tradicional da indumentária do gaúcho, adquirido lá em Vacaria, onde a tradição marca presença.
Estreei o chapeu na feira da Expoínter, exibindo-o orgulhosamente quase todos os dias, assim como, também, pretendo usá-lo até o final das festividades da Semana Farroupilha no Acampamento Farroupilha.
O orgulho e a alegria de ver os hábitos culturais sendo cultuados é emocionante, mesmo para quem não tem um coração gaúcho. Logo ali, na beira do Guaíba, no Parque Harmonia, no coração da capital do Estado, centenas de piquetes se instalam e comemoram as tradições gaúchas. As crianças escutam com orgulho, atenção e encantamento os causos e as narrativas dos mais velhos; os adultos revezam o chimarrão e preparam o churrasco sob o toque da gaita e do violão, atividades obrigatórias em todos os piquetes do parque. As prendas exibem seus longos vestidos erguendo a saia até meia canela, para evitar o barro nos dias chuvosos, já os peões, se dedicam aos cuidados com os cavalos, mas sempre com um olho atento no andar das prendas. E assim, entre inúmeras atividades, o mês de setembro vai passado em meio às tradições do nosso Estado e, obviamente, com isso tudo, eu não poderia me privar de exibir meu chapeu.
No entanto, narrar esses eventos aos gaúchos é o mesmo que descrever o carnaval para os cariocas, mas a verdadeira razão de eu estar falando do meu chapeu é que ele me faz lembrar, entre muitas outras coisas, a importância de mantermos as tradições, especialmente da necessidade de permitirmos a renovação, ou seja, a mudança. Aparentemente tradição e modernidade não podem conviver, aliás, elas só aparecem bem nas campanhas de marketing, onde as empresas tentam aliar sua tradição à inovação tecnológica, mas, quando falamos em cultura a compreensão é muito mais difícil.
Os mais velhos rejeitam as inovações dos mais jovens e estes desqualificam a tradição dos mais velhos, resultando numa grande perda para ambos. A perfeita convivência entre o novo e o moderno não só é possível como inevitável, uma vez que a evolução é algo natural, uma vez que o segredo está em saber aceitar a mudança e encontrar o equilíbrio entre ambos. Contudo, essa dificuldade de aceitação ocorre não somente nas questões culturais, mas principalmente na vida pessoal. A diferença é que ao tratar-se do pessoal, o nível de percepção é muito menor que o das questões sociais. Resistimos à mudança, como se fosse algo fatal e realmente é, porém não fatal à vida, mas, fatalmente a mudança sempre virá, pois a vida muda constantemente e, tentar impedir a mudança é inútil, porém podemos concentrar esforços para moldá-la a algumas das nossas necessidades.
Outra questão importante que envolve choque de realidade são os valores que estão cada vez mais fúteis e sujeitos a equívocos em nome da modernidade. Os verdadeiros valores humanos não se perdem e nem se opõe à modernidade, eles simplesmente dão consistência à vida, e devem ser utilizados para nortearem as ações, mas jamais como empecilhos a verdadeira mudança.
Não podemos esquecer, que se renovar é fundamental para uma vida feliz e, ser capaz de renascer todos os dias, acrescentar algo de bom a cada momento da vida é um desafio necessário para uma vida feliz, porém, ao mesmo tempo em que não podemos viver do passado não podemos ignorá-lo, uma vez que o que somos hoje é resultado do que fizemos ou deixamos de fazer no passado. As tradições mais antigas ou os atos mais recentes é o passado que deve ser levado em conta não somente para o aprendizado, mas como um fator importante para projetar o futuro. A boa notícia é que por mais que o passado tenha sido “ingrato” ou “injusto” com os nossos objetivos, sempre podemos utilizar o presente para fazer um futuro melhor. Na realidade o que temos, é somente o momento presente, e este não pode ser desperdiçado com lamentações ou divagações infrutíferas. Precisamos aprender a viver o agora fazendo o que deve ser feito de forma consciente e acreditar que este aprendizado é o que irá nos proporcionar as melhores condições para o vivermos o futuro.
O meu chapéu, o Acampamento Farroupilha, a Expoínter, são apenas elementos que me fizeram refletir sobre as belezas culturais e a importância do equilíbrio entre a tradição e a modernidade, bem como a inútil luta para evitar a mudança. Contudo, é muito bom perceber que tudo pode conviver harmoniosamente quando existe respeito. Boa semana.
 

criado por Jair Antonio Pauletto    22:32 — Arquivado em: Artigos, Crônicas

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