Caminhos

“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” Arthur Schopenhauer. Revisão Textual de Rosi Gotz.

27.12.06

Depoimento ao Amor

Cássio havia chegado alguns minutos antes do horário,esperando encontrar a sala vazia e avaliar os  processos para o interrogatório. Ao ser anunciado para entrar na sala de audiência ,deparou-se com a perfeição personificada, ficou estático, imóvel como uma estátua, não estava preparado para aquela surpresa. Alguns segundos depois, reuniu as forças, disfarçou e todo embaraçado, apresentou-se.

A Delegada, cumprimentou-o delicadamente e elegantemente voltou a sentar-se. Cássio procurou o fio de meada, mas não conseguiu disfarçar o quanto estava transtornado com aquela suntuosidade, a perfeição das formas, e aquele sorriso atraente ,despertaram-lhe um fascínio único por aquela mulher.

Enquanto fornecia os documentos de identificação, procurou se recompor, arrumando a ordem dos papéis que trazia consigo, e concentrando o pensamento nos fatos referentes ao depoimento que iria prestar. Não era uma tarefa fácil,pois sabia que o seu testemunho poderia auxiliar ou arruinar muitas pessoas. Logo; queria ser justo e toda a atenção seria necessária.

Durante todo o depoimento ,observou atentamente a delegada. Era uma pessoa encantadora, que desenvolvia seu trabalho com requinte e maestria como ele nunca vira antes, o resultado era um primor.

Tratava-o com muita delicadeza sem perder o rigor que a atividade lhe impunha, era muito hábil em expor seus questionamentos, sagaz na busca dos objetivos,mas, sem perder a gentileza, compreensão e humanidade necessária.

Diante de tanta graça, sentiu-se enfeitiçado e foi sendo tomado por uma forte inclinação amorosa, era uma tendência natural diante de uma mulher tão esplêndida. Mas Cássio conteve-se, pois temia ser considerado insano, caso falasse o que estava se passando em seu interior, afinal, esse tipo de atração já havia acontecido antes e ele havia administrado com certa facilidade. Despediu-se da bela mulher e apressadamente dirigiu-se ao carro procurando no rádio uma razão para distrair-se.

As sensações que aquela mulher lhe proporcionou prolongaram-se por vários dias, e o esperado desencanto por Monise não se manifestava, pelo contrário, estava cada dia mais enfeitiçado. Não havia opção, teria que aliviar seu coração, mas como poderia fazer isso sem que fosse mal interpretado. Cássio não era um homem inseguro, mas diante daquela mulher sentia-se um pouco inferiorizado.

Sentiu que precisava ser ousado e juntou toda a coragem para fazer o depoimento mais importante da sua vida, ou seja, declarar seus mais puros sentimentos, que surpreendentemente foram compreendidos e  retribuídos. Era muita felicidade para um coração agitado, a pulsação ecoava no ambiente, parecia estar vivendo um sonho.

O romance ficava cada dia mais sólido. A pureza dos sentimentos e a cumplicidade tornavam o relacionamento cada vez mais forte. Pensavam somente em se amarem, viviam o presente e acreditavam que o futuro só poderia trazer mais felicidade. Essa era a fórmula daquele relacionamento, que por pouco deixou de existir. Porém, a ousadia de Cássio em declarar-se, fizera surgir um dos mais belos relacionamentos amorosos. Ora, até onde se tem notícias ,continua prosperando e ambos vivem seus dias cada vez mais felizes.

criado por Jair Antonio Pauletto    17:27 — Arquivado em: Crônicas

26.12.06

O Mistério da Voz.

Acordo com uma ressaca assustadora. A cabeça parece explodir e aquele gosto estranho na boca me leva direto ao banho. Se não bastasse tudo isso, o sabonete e a toalha sumiram. Ainda sonolento, pego a toalha e aleatoriamente coloco a mão na gaveta, que retorna com um sabonete de embalagem laranja. Ao iniciar o banho, ouço uma voz profunda, aguda, parecia Cid Moreira ecoando em vez do Boa Noite, dizendo: B O M  D I A ! Exagerou na ceia de Natal hein? 

Olho ao meu redor, tentando identificar a origem daquela voz, absolutamente assustado, apavorado, arrepiado, sei lá, com essas coisas não se brinca. 

Parecendo ouvir meus pensamentos, a voz se manifestou novamente: 

- Fique tranqüilo, sou da paz. 

Assustado, perguntei: 

- Quem é você? 

-Não se preocupe, estou aqui para ajudar. 

- O que você quer? 

- Já falei, estou aqui para ajudá-lo. 

Cada vez mais apavorado, não respondi nada, mas a misteriosa voz continuava;

- Vou ficar com você esta semana para ajudá-lo a se limpar e para que possa se tornar um ser humano melhor.

Há essa altura, estava na metade do banho, e a dor de cabeça havia sumido, já que, era de lá que parecia vir essa voz, que por sua vez, persistia;

- Por seu próprio merecimento, estou aqui para auxiliá-lo na caminhada para a evolução. 

E assim, a cada banho aquela voz se manifestava. Sendo que, no segundo banho já éramos amigos, o meu mais novo guru.

Aconselhava-me a mudança interna e insistentemente procurava mostrar a necessidade desse reparo. Recomendava-me a renovar atitudes, além de insistir que eu valorizasse e promovesse o amor e a caridade.

Conforme nossos diálogos iam se sucedendo, minhas atitudes e a maneira de enfrentar a vida iam se modificando,assim como, os cenários pareciam ficar cada dia mais promissores.

Ao mesmo tempo em que ia ganhando força e confiança nos novos rumos que estava dando a minha caminhada evolutiva, a voz aparecia ir perdendo aquela sonoridade, mas, estava cada vez mais fixa na minha cabeça.

Poucos dias depois, o mistério da voz estava revelado e solucionado. Visto que, a voz provinha incrivelmente do sabonete, que no momento, estava bem fininho. Imediatamente tratei de secá-lo para que pudesse durar mais. Mas, pra minha surpresa, fui informado que ele só poderia se comunicar enquanto o sabonete estivesse sendo usado. Diante disso, mesmo contrariado, não restava alternativa, a não ser usá-lo até acabar.

Quase sem voz, o sabonete deixou seu último recado:

- Estarei a todo o momento pronto para orientá-lo, basta você se concentrar que me aproximarei de você. Outra coisa, tive que utilizar esse sabonete para chamar sua atenção, na tentativa de mudar os rumos de sua caminhada e para auxiliá-lo. Basta você querer me ouvir. O que fiz nesses dias, foi mostrar o caminho pra você, e você deverá percorrê-lo , porque essa caminhada é só sua. 

Após recado, fiquei mais aliviado, afinal havia uma forma de voltar-mos a conversar, pois o sabonete falante acabando entre os meus dedos. 

O Ano novo está iniciando, e as esperanças de tempos melhores desta vez ganharam forte reforço. Mas, para que isso ocorra, a responsabilidade é toda minha.

É o inicio de uma nova etapa de expansão da consciência, um processo irreversível. 

Que venha um 2007 maravilhoso para todos.  

criado por Jair Antonio Pauletto    13:16 — Arquivado em: Crônicas

25.12.06

Um estranho diálogo.

Dezembro é um mês que se diferencia dos demais; caracteriza-se pela correria em busca das melhores opções para o Papai Noel, enfrentando longas filas nas lojas, estacionamentos lotados, cartões de credito estourando e uma esperança para os lojistas  recuperarem suas vendas. Além destas atividades tradicionais, também é o  mês em que são feitas as avaliações do ano, ou seja, as esperanças de um ano melhor começam a tomar forma e os planos para as férias são finalizados.Assim como tantas outras atividades, contudo,  nada caracteriza mais o final de ano que a confraternização da empresa. Trata-se de um momento gratificante,  isso é claro, se o coleguismo, a harmonia e a união prevaleceram durante todo o ano, ou  melhor ainda, se as metas  propostas foram atingidas.

Também pode ser um momento estressante e  sua presença ser mera formalidade, ou  pra não desagradar o chefe, ou  até pra não comprometer o seu cargo. Em regra, considera-se o evento como um momento agradável, em que os colegas aprofundam suas relações e confraternizam seu trabalho.

Este ano, embora as confraternizações terem sido sempre muito agradáveis, não estava disposto a participar. Estava inclinado a descansar e precisava de uma  trégua , afinal, foi um ano que exigiu muito trabalho e esforço.

No entanto, a esse esforço e a dedicação especial que resolvi dispensar a família, em especial minha filha, que embora tenha me proporcionado momentos maravilhosos, exigiu redobrada energia. Além de frustrada perspectiva de não poder sair de férias no primeiro semestre do próximo ano, a decisão de não participar parecia ser a mais adequada, mas o coleguismo falou mais alto e acabei participando, sentindo-me gratificado no final.

Confesso que a festa foi muito agradável, que além de  reencontrar amigos e outros parceiros de trabalho, mas a atração especial ficou por conta do meu amigo Rafael; que, após retornar do lavatório, sentou-se a mesa, e ainda muito transtornado, narrou o seguinte acontecimento:

Pessoal aconteceu um fato inusitado, vocês não vão acreditar! tem um louco lá… (apontando na direção de onde veio). Quando fui secar as mãos e dirigir-me a saída, mas não antes de dar aquela olhadinha no espelho para ver se o sono estava muito aparente e o cabelo ajeitado,eis que, um senhor de uns cinqüenta e poucos anos, dirigiu-me a palavra, dizendo que seu cabelo havia sido cortado por ele, e  mais, que  utilizara um espelho para um melhor acabamento no corte na região da nuca .  

Enquanto a “aparição” falava, fiquei admirando o corte , e constatei que esta bom, apesar dos grisalhos. Ao me refazer da surpresa, e após uma instantânea, apurada e desconfiada avaliação, elogiei o corte, e apressei o passo em direção a saída, porém, aquela ”imagem” insistiu na conversa, e perguntou quanto eu pagava ao meu cabeleireiro pelo corte de cabelo. 

 Fiquei tão surpreso que não sabia o que responder, mas  falei que seria  doze reais, embora, o valor verdadeiro fosse quase o triplo. Respondeu imediatamente que era muito caro, e foi me  mostrado o corte, agora como o pente entre os cabelos para perceber a perfeição do acabamento. 

Confesso que estava constrangido com a situação, afinal,  não queria parecer mal educado, mas mesmo assim, aquele senhor não  parava de falar .Pra ser sincero, ele só parou de falar quando confirmei e enfatizei que o corte realmente havia sido ótimo, e fui saindo apressadamente,deixando-o falando com o espelho, ou sei lá…..”.

É claro que vocês podem imaginar o restante da noite, cada um dos integrantes da mesa, tinha uma versão para o ocorrido. A única coisa que consegui fazer, entre gostosas gargalhadas, foi não emitir opinião quanto à preferência e personalidade do interlocutor do inusitado diálogo de Rafael. Uma semana após, o corte de cabelo do colega, ainda é motivo de piadinha no cafezinho, mas nada comparado ao dialogo…. São histórias banais como essas que acabam reunindo colegas e transformando-os em amigos, e,  sobretudo, contribuem para uma maior integração e pra  tornar, com certeza, o trabalho mais leve.

È por essas e outras histórias que nossas confraternizações são lembradas com saudade e esperadas ansiosamente todos os anos, independente de cenários adversos, ou não.

Boas Festas!

criado por Jair Antonio Pauletto    0:12 — Arquivado em: Crônicas

22.12.06

Festa no Interior

As festas do interior realizadas nas pequenas comunidades rurais podem ser um bom exemplo de união e dedicação ao próximo, pois conseguem através da dedicação e colaboração dos integrantes da comunidade superar as adversidades e levar alegria e satisfação ao povo.

Essas festas são muitas vezes as únicas diversões para este povo sofrido que trabalha tanto e vê o suor do seu trabalho escorrer pelas mãos, quando os atravessadores adquirem seus produtos.

Rodolfo, que viveu boa parte da sua vida em uma dessas comunidades, depositava todas as expectativas nestas festas. Elas representavam o que hoje seria comparável somente a uma visita à Disneylândia. Era a possibilidade de vestir aquela roupa de festa e até de ganhar uma nova. Pelo menos a cada par de anos isso ocorria, pois as roupas eram confeccionadas alguns números maiores para que pudessem durar mais tempo, assim como os sapatos eram preenchidos com algodão ou jornal para não soltarem do pé e servirem por mais tempo.

Mas certamente o mais importante era a possibilidade de tomar um refrigerante, coisa rara naquela época, em que exibir-se aos amigos com aquele bigode colorido de Q-suco, um famoso suco puramente artificial, era o máximo que uma criança podia ostentar. As festas começavam pela manhã e terminavam no final do dia.

A missa matinal dava inicio ao domingo e logo após, o esperado torneio de futebol, do qual, fazia parte os times das comunidades vizinhas. Algumas mulheres se recolhiam ao salão e ficavam admirando a roupa nova das vizinhas, enquanto outras sentavam na sombra das árvores para assistir os jogos.

Ao meio dia era a vez de almoçar em família. As mais endinheiradas, compravam dois grandes espetos de churrasco que eram colocados no chão para serem servidos ali mesmo, a sombra de alguma árvore.

As bebidas eram geladas em grandes tinas, juntamente com grandes barras de gelo e serragem, e servidas igualmente entre os familiares, na proporção de três quartos dos pequenos copos de vidro canelado.

Repetir a bebida diante de tanto sol e muitas vezes da carne salgada, era um desejo natural, mas só era permitido se fosse algo que tivesse sido trazido de casa, na região de Rodolfo o vinho era a bebida mais freqüente, ou o tradicional Q-Suco.

Durante a tarde, o futebol era a atração principal, havia também um jogo em que 15 pequenas latas eram empilhadas, em cima de uma tábua fixada a meia altura. As latas dispostas em forma de pirâmide, iniciando com uma base de cinco, deviam ser derrubadas através do arremesso, a determinada distancia, de três pequenas bolinhas geralmente feitas de meias velhas. Ganhava o jogo quem conseguisse derrubar mais latas. O ganhador levava um pequeno prêmio.

Essas atividades eram as atrações voltadas aos homens, enquanto que as mulheres recolhiam-se ao salão para o café da tarde ou permaneciam a sombra das árvores para vislumbrarem a partida.

Rodolfo brincava a tarde toda, como as demais crianças, enquanto degustava aquele refrigerante, adquirido logo após o almoço e seria consumido durante toda à tarde. Para que o refrigerante não fosse sorvido todo de uma só vez, era vendido, as crianças, com um furo na tampinha de metal, feito com um grande prego e martelo. Rodolfo e as demais crianças bebiam seu refrigerante aos poucos, pois sabiam que não haveria outro, as bordas da tampa machucavam a boca, mas não se importavam, constantemente mediam os quantitativos para ver quem ainda tinha mais para beber.

Havia algo de mágico naquelas festas. Rodolfo retornava para casa no final da tarde exausto, mas feliz. Até hoje a saudade insiste em recordar prazerosamente.

criado por Jair Antonio Pauletto    8:27 — Arquivado em: Crônicas

Natal época de renascimento e morte.

Para quem esta achando que morte e natal não combinam, peço um pouco de paciência, pois pra mim, são uma coisa só. Calma! tentarei explicar porque entendo assim; A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação. Nós mesmos, por exemplo, somos a transformação do espermatozóide e do óvulo, no entanto, frutos da morte do espermatozóide e do óvulo. Assim, sem esta morte, não existiríamos. 

A morte, é o limite entre o passado, futuro e o inicio de uma nova fase. Sem a morte do antigo, não surge o novo, não que o antigo precise deixar de existir. Ele até poderá conviver com o novo, mas sem a morte do velho paradigma, a inovação não ocorreria, especialmente quando falamos em tecnologia, ou até mesmo quando queremos expandir nossa consciência, é necessário que matemos conceitos restritos e ultrapassados. 

O Natal é uma transformação. É o encerramento de um ciclo, é o momento de matar o desgosto, as dificuldades, o sofrimento. É também a ocasião para acreditar no novo e projetar uma vida nova. Sendo assim, para essa nova vida prosperar, devemos matar o que nos impede de sermos felizes. Sem esquecer das falhas morais e de caráter, das nossas inferioridades, ou seja , devemos procurar superar-las e deixa-las pra traz, para nos transformarmos em seres melhores e mais iluminados.

Pense no Natal como uma oportunidade, e identifique o que você precisa matar em você, para que possa nascer a pessoa que deseja ser.

E para aquelas pessoas que ainda se surpreendem quando relaciono a morte com o Natal e até com o Ano Novo, sugiro que passem a ver essas datas como uma oportunidade de renascerem pessoas melhores, mais comprometidas com seu próprio crescimento e dispostas a matar o egoísmo, a indiferença, a injustiça e a inércia, transformando o ambiente que vivemos e os que nos cercam.

Dessa forma, desejo a todos que este Natal e Ano Novo sejam o inicio do despertar para a necessidade de matar o que nos impede de expandirmos nossa consciência, de realizarmos nossos sonhos e de sermos mais felizes, pois, só conseguiremos ser seres mais humanos e melhores, se formos capazes de renascer com mais amor no coração. Feliz Natal e um Ano Novo repleto de amor, sucesso e alegria.

criado por Jair Antonio Pauletto    8:25 — Arquivado em: Crônicas

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