Caminhos

“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” Arthur Schopenhauer. Revisão Textual de Rosi Gotz.

26.1.07

Amor após o Amor

 

 

 

A temperatura dos corpos e os aromas do amor se espalham pelo ar e nada mais atrapalha a harmonia do ambiente. Os corpos vibram na mesma freqüência por causa da intensa troca.

Não há nada que tenham experimentado ou conhecido que supere o presente momento. As preocupações e os problemas são coisas de humanos, porém agora, são deuses e estão sintonizados com o universo.

Como deuses, não há conquistas que não possam ser alcançadas. Tudo é possível neste momento. A vida humana terá que esperar porque é a vez do amor pleno. Não há nada mais importante agora.

A potência do amor, já havia sido esvaziada. O prazeroso momento esgotára as energias e os dois caíram exaustos. Entrelaçados, como só é possível nessa hora em que todos os encaixes ocorrem perfeitamente. São dominados por um relaxante torpor.

A respiração dele sorve o suave perfume de seu colo, enquanto o braço da amada assume o lugar de um aconchegante travesseiro.

A coxa direita o prende pela cintura, enquanto os seios acariciam seu pescoço. Agarrado como se fosse um filhote a mãe, a mão esquerda sente a perfeição e delicadeza da nádega direita.

Aquele gostoso cansaço que geralmente convida-os a dormir, não tem lugar neste relacionamento. Este espaço é preenchido por uma sensação que não sabem expressar, então repetem, mais uma vez, o que acreditam resumir aquele momento: eu te amo.

Esses momentos apesar de freqüentes, seguiam sempre por caminhos diferentes, cada vez mais prazerosos e incrivelmente intensos.

É este amor pós ápice que muitas vezes deixa de ser experimentado, embora só se manifeste em uma relação verdadeira. É o que nos possibilita prolongar o paraíso terrestre.

Não deixe de buscá-lo, por mais longa e árdua que possa ser a jornada.

Veja também: http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=14605 

criado por Jair Antonio Pauletto    15:59 — Arquivado em: Crônicas

24.1.07

O 172 Aniversário

Calçou os chinelos e imediatamente percebeu que a temperatura do pé direito estava dois graus acima do programado. Lembrou que precisava fazer download da nova versão.

Após, dirigiu-se ao banheiro, pois estava ansioso para experimenta a nova cadeira três funções. Mas assim que abriu a porta, a imagem alográfica da mãe, esposa e filho desejaram-lhe em coro um feliz aniversário. Foi à maneira que a família encontrou para cumprimentá-lo, ou seja, estavam há treze segundos luz de casa aproveitando as duas semanas de sol, destinadas a cada cidadão conforme rodízio universal.

Ficou muito feliz por ser lembrado pelo aniversário, mas concentrou-se no novo banheiro. Sentou-se na cadeira, que imediatamente identificou suas necessidades fisiológicas e higiênicas, cada qual no seu tempo e temperaturas pré-determinados. Enquanto a cadeira efetuava as tarefas, percebeu que estava diante do espelho e começou observar suas olheiras.

Inicialmente teve algumas dificuldades em se adaptar ao programa que fazia a escovação dos dentes, bem como com a suavidade do barbear, mas estava satisfeito com a nova aquisição.

O aroma do café invadia o ambiente, enquanto Xb3s preparava duas torradas, embora não recomendadas para sua saúde. Era um vício trazido lá do século 21, que não estava disposto a abandonar.

Lembrava de sua infância, em que o café da manhã podia ser degustado em uma mesa cheia de “venenos”; como pão, geléias, manteigas, café e leite. Mas havia as frutas…, Ah! o que não daria por uma fruta natural. Sabia que havia algumas disponíveis no mercado negro, geralmente oriundas de roubos dos museus naturais. Quem sabe um dia desses ainda poderia saciar essa vontade.

Mas como hoje era seu aniversário, precisava checar as câmaras, a linha de satélite e todo o equipamento do salão nobre, pois na grande confraternização da noite, não poderia deixar ninguém sem conexão.

Era a oportunidade de rever velhos amigos distantes, como alguns que estavam há vários meses luz, e especialmente relembrar as velhas festas do século passado.

A trilha sonora seria a grande atração da festa, pois após vários anos luz, finalmente conseguira localizar preciosas coletâneas da segunda metade do século passado.

Lembrou ainda, que precisava visitar a fábrica porque havia problemas na linha de cápsulas de jantar sabor lagosta. Poderia utilizar o tele - transportador, mas queria aproveitar o dia, que apresentava índices de qualidade do ar possíveis de respiração. Abandonar o oxigênio artificial e respirar os ares da rua, enquanto dirigia o próprio flutuador até a fábrica, lhe parecia uma ótima idéia.

Rapidamente fez os ajustes necessários para restabelecer a produção. Quando se preparava para retornar, a secretária comunicou que havia uma nuvem de fumaça tóxica se aproximando e o trânsito de flutuadores havia sido suspenso. Retornou então pelo tele - transportador, e ao chegar, encontrou um RememoreX5000 dourado sobre a mesa, parecia-lhe familiar mas não se deteve, simplesmente pensou que poderia ser algo para a gravação das festividades da noite.

No entanto, horas depois, sentiu as primeiras ações do Epitaféx. O Epitaféx era o vírus que dava inicio ao processo de passagem para o novo estágio evolutivo. Primeiramente todos os principais momentos da vida eram relembrados, permitindo que a vítima pudesse avaliar sua vida terrena. Após, iniciava-se um processo de transferência de arquivos para a o RememoreX5000, onde ficariam guardados para serem restaurados na próxima passagem pela terra. Os que tinham saldo positivo, era permitido gravar uma pequena mensagem final que seria transmitida aos entes queridos após sua partida.

Charles tivera uma vida dedicada ao bem estar da humanidade. Sua característica principal era a caridade, talvez essa fosse a razão de haver conquistado um saldo positivo. O processo de avaliação do saldo, ainda era um mistério, atribuído a uma mente superior.

Em pouco micro segundos luz, estava permanentemente desligado do mundo material. Sua alma estava livre para no outro plano lembrar e quem sabe reviver o tempo em que o planeta terra, era habitado por humanos iguais a ele.

Infelizmente não conseguiu comemorar seu 172º aniversário, mas partia feliz com a sensação do dever cumprido, um privilégio de poucos em todos os tempos.

Veja também: http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=14605 

criado por Jair Antonio Pauletto    16:43 — Arquivado em: Ficção

20.1.07

AgeLima Jolie

Quando o assunto é o continente asiático, lembramos de belezas naturais, competitividade industrial, tecnologia, olhos puxados, população numerosa, além de tantas outras curiosidades e atrações.

Os chamados países asiáticos foram os que nos últimos anos atraíram a atenção da comunidade mundial pelo desempenho econômico. Hoje a China lidera esse processo. De lá recebemos diariamente milhares de produtos com preços competitivos, especialmente devido ao baixo custo da mão de obra. Quem nunca consumiu um produto fabricado lá? Quem nunca consumiu uma fruta originária de lá? Para a primeira pergunta logo temos uma resposta na ponta da língua, porém para a segunda, temos que pensar um pouco e talvez até pesquisar. Quer uma dica? Pois é, trata-se da fonte mais popular de vitamina C. Infelizmente, entre a família dos citros há uma variedade impopular e a mais descriminada pela população. Talvez seja uma questão de monopólio dos grandes e tradicionais produtores, receosos de perder mercado com as variedades tradicionais. Os fuxiqueiros de plantão culpam-na pelo seu aspecto, mas na verdade trate-se de uma absoluta inveja ou ciúme, visto que, é uma variedade superior.

Apresenta-se de forma discreta e elegante, uma fruta verdadeiramente charmosa. Seu charme começa pela coloração amarelo-claro, a casca é fina e sua forma é menos “gorducha”, o que lhe atribui uma elegância diferenciada. Seu sabor suave e pouco ácido é apreciado até pelos bebês. Comparando-a ao mundo das bebidas, diria que seu suco equipara-se ao bom espumante (Don Giovanni Brut Ouro, Chandon Excellence), ou no mínimo ao tradicional Dry Martini. 

Ela é a verdadeira dama dos citros, é como uma gueixa, ou seja, um privilégio de minorias, os poucos que sabem aprecia-la. Deveria haver um movimento nacional em prol a valorização desta fruta, mas um movimento como jamais visto neste país, superior a luta pelas diretas ou o dos caras pintadas, com a colaboração do MPF – movimento dos pequenos fruticultores, é claro.

Existe claramente um boicote a essa fruta. Nos supermercados quando encontrada, geralmente fica exposta num cantinho discreto, quase escondido. Enquanto que suas “irmãs” ocupam sempre um local de vitrine. Os feirantes não a exibem em suas bancas. Assim como, o seu nome também não é pronunciado nem mesmo entre os intervalos de: “olha o chuchu, olha o aipo, a jaca…, tudo baratinho…”.

Seus gomos de sabor suave e doce, apesar de pálidos, parecem os lábios carnudos de Angelina Jolie. Quanto ao sabor, bom! Isso infelizmente não posso afirmar. Mas, o que posso garantir é que são suculentos, os gomos é claro, rega nosso paladar com seu delicioso suco.

É claro que para alguns não passa de uma fruta indecisa, ou seja, a definem como um citro sem coragem de ser laranja e sem força suficiente para ser um limão. E ainda, para os paladares menos apurados, é uma fruta sem sabor definido, insosso, nem doce, nem amargo. Como se seu sabor não fosse sabor. De que sabor seria então? Caju?

Entretanto, para aqueles que a consideram “sem graça”, espero que ao vê-la, lembrem dos “gomos”, da boca da Angelina Jolie ou a de Brad Pitt, se assim as meninas preferirem.

Assim quem sabe, ela passe a ser vista, disponibilizada e degustada como uma fruta diferenciada, não somente pelo sabor, mas principalmente que também possa resgatar o seu lugar de rainha no reino dos citros.

Diante disso, convoco todos a lutar para acabarmos com o boicote a essa fruta, e principalmente saírem às ruas e engajarem-se a campanha: “Eu quero mais Laranja-lima”.

Veja também: http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=14605 

criado por Jair Antonio Pauletto    9:10 — Arquivado em: Crônicas

17.1.07

Humor

A seriedade, amplamente entendida como sendo sinônimo de excelência moral, probidade e retidão, geralmente é atribuída a determinada pessoa para exaltar-lhe a importância e suas qualidades. 

O Humor, ao contrário é considerado uma futilidade, algo menor que beira a desqualificação, a irresponsabilidade. 

Ser bem humorado não impede de sermos sérios e sinceros, no que diz respeito a nossas vidas, ao trabalho, a família, enfim as responsabilidades.

Como é melancólico, triste o ser humano sem humor. Porém tão triste e muito desagradável ainda, é quem confunde humor com ironia. Ironia é o riso da maldade, o riso que se leva a sério, que machuca e destrói. É o riso zombeteiro, sarcástico, que fere como se fosse uma metralhadora.É a seriedade que só vê o ridículo. É a pequenez na sua forma mais pejorativa.

O Humor é alegre, ri de si, é empático, amplia horizontes, aproxima e acrescenta.

O humor deve ser cultivado, valorizado e ampliado na nossa vida, pois é alegria, e esta faz parte do amor. Quem não tem humor não é otimista, não vê a vida como uma oportunidade, um contentamento, e sim, como um sacrifício. São pessoas negativas  e de espírito fechado.

Quem de nós já não encontrou aquele colega, amigo ou conhecido que parece andar com uma nuvem preta sobre a cabeça. Para ele nada dá certo, tudo é triste e difícil e, se você ficar algum tempo próximo dessa pessoa, ela também arrastará você para o fundo do poço e não há nada que possa ser dito que o mova daquele estado. Esses são aqueles que se consideram sérios, realistas e confundem humor com ironia. Conviver com essas pessoas é estar caminhando para a tristeza, o desanimo e a amargura, pois nos contagiam, ficam felizes em nos puxar para baixo. Depois dizem: “viu eu te falei, a vida é assim mesmo.” Quando encontrar uma dessas ajude, mas não mais que duas vezes, ou você será sugado para seu poço.

Conserve a alegria e o bom humor, pois tornam a vida mais leve e feliz.

O Humor contagia e transmuta a tristeza em alegria, o ódio em amor e nos eleva como seres humanos.

criado por Jair Antonio Pauletto    11:36 — Arquivado em: Artigos

15.1.07

Segunda

Nada como poder dispor de tempo livre para fazer o que se quer sem nenhuma obrigação, ou seja, escolher o que fazer por puro prazer. Entretanto, há um limite entre o fazer por prazer e o fazer por obrigação, isto é, o lazer e o trabalho.

Um exemplo deste limite é o primeiro dia útil da semana que nos tira do prazer do final de semana e nos coloca na realidade do trabalho.

Nesse caso, o único consolo da segunda-feira é que cinco dias depois um novo final de semana estará nos aguardando, além de ser o dia mais distante da próxima.

O trabalho sempre louvado ao longo da história e fortalecido pela sociedade ocidental, tornou-se praticamente uma obsessão.

No livro do Eclesiástico, há uma advertência quanto à importância do trabalho, que diz: “Lança-o ao trabalho, para que não fique ocioso, pois a ociosidade ensina muitas coisas perniciosas”.

Essas palavras foram fortalecidas pela cultura judaico-cristão. Quem nunca ouviu, principalmente dos mais velhos as seguintes frases; cabeça vazia é a oficina do diabo? Ou, que o demônio sempre arruma oficio para quem está desocupado?

Lembro que Vovó sempre dizia ao meu pai, que seus filhos, embora ainda crianças, eram uns desocupados. Provavelmente na cabeça dela o demônio devia estar trabalhado árdua e tranquilamente nas cabeças dos netos desocupados. Como se tivesse em duas oficinas equipadas e bem novinhas.

No entanto, eles não se consideravam desocupados. Tinham muitas tarefas a fazer, como; alimentar os animais, recolher roupas do varal, entre outras. Essas pequenas atividades designadas às crianças, eram as introduções ao valor do trabalho, coisa típica daquela e de outras famílias italianas. Embora não fizessem as tarefas, chama-los de desocupados não lhes parecia correto, pois tinham muita coisa a fazer. Só não faziam. Desocupado é quem não tem o que fazer.

Essa herança de trabalho, assim como na minha, inicia ainda na infância e a incorporamos automaticamente para o resto de nossas vidas. Se não despertarmos a tempo, veremos a vida escorrer somente para o trabalho, ou seja, para a obrigação.

É claro que o trabalho também pode ser um prazer e nos realizar, tanto profissional, quanto pessoal. Sem esquecer que deve ser com equilíbrio. Este é um grande perigo. Se em nome desse prazer, ele acabar tomando a maior parte de nossas vidas. A segunda-feira pode ser uma obrigação ou um prazer. Mas, se o final de semana não for um prazer maior, não há razão de se levantar para a obrigação. Agora, se a segunda for uma obrigação mais leve que o final de semana, procure imediatamente um especialista.

criado por Jair Antonio Pauletto    12:47 — Arquivado em: Crônicas

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