27.2.07
Violência e Coragem

Devido as dificuldades de formatação e edição deste blog, que o provedor "deve" estar resolvendo, o texto esta dispopnível no link abaixo:

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Era um belo jardim que ficava em frente à praça, entre a igreja matriz e a rodoviária, daquela pequena cidade.
Moradores e forasteiros não cansavam de exaltar a beleza daquele jardim. Era um encantamento de “perder a cabeça”. As flores eram de um vermelho intenso. Já os brotos que surgiam nas árvores, eram de uma tonalidade mais escura das demais plantas. A beleza era tanta que o enorme tapume que cercava a metade do terreno não chamava mais atenção.
Inicialmente todos estranhavam que o jardim seguia uma espécie de rodízio, como fazem alguns criadores de gado. Alternam os campos de pastagem para oferecer um pasto sempre novo aos animais.
A lógica da discreta e solitária proprietária parecia seguir este sistema, pois assim que o tapume era retirado, a outra metade do jardim podia ser apreciada em toda sua exuberância. Era uma espécie de rodízio que se repetia há muitos anos. Ninguém lembrava há quanto tempo aquele rodízio acontecia, assim como também ninguém lembrava quando o jardim passou a ser a principal atração da cidade.
Várias gerações namoraram na praça e ficavam encantados, principalmente com as flores. As fotos de batizado e casamento das famílias sempre tinham como pano de fundo a beleza daquele jardim. Alguns dos moradores mais antigos dizem que um determinado vigário, certa vez entrou em confronto com a proprietária. Pois, o local atraia mais visitantes que a igreja matriz. Mas, a confrontação não deu em nada, porque o padre acabou perdendo a causa e foi substituído.
A proprietária era uma discreta viúva que pouco era vista, mas chamava a atenção pela beleza de seus traços finos e pelos seus cabelos longos e negros. Era uma mulher discreta e admirada pela beleza de seu jardim. Os poucos e breves comentários que surgiam sobre ela, referiam-se ao seu verdadeiro nome e sua idade. Muitos juravam que ela era muito idosa, embora aparentasse uma mulher de uns cinqüenta e poucos anos.
Eu conheci a cidade através de um amigo, que um dia desses organizou um seminário por lá e me convidou para colaborar. Felipe, além de organizador, também era palestrante.
Havia chegado à noite anterior. Jantei na companhia da família do amigo. E no dia seguinte, participei em algumas atividades profissionais.
Como as atividades de Felipe estenderam-se noite a dentro e reiniciariam logo cedo pela manhã, resolvi agradecer a oportunidade e a acolhida e aguardar o ônibus no frescor da madrugada, sentado naquele enorme banco da rodoviária.
No silêncio da noite escura, fiquei pensando na beleza daquele jardim encantador e também muito curioso em saber a técnica empregada no cultivo daquele lugar. Segredos!….. cada qual em sua atividade.
Enquanto vagava nestes pensamentos, o silêncio foi quebrado por um som estranho, pareciam bramidos que se repetiam com certa freqüência. Ao observar, percebi que vinham do terreno cercado pelos altos tapumes. Os bramidos eram cada vez mais freqüentes e variados, aguçando ainda mais a minha curiosidade. Como meu ônibus ainda demoraria uns quinze minutos, reuni minha coragem e fui investigar os estranhos barulhos. Ao me aproximar do cercado, encontrei uma tábua mal pregada e enfiei a cabeça pela pequena passagem. Minha primeira visão foi de uma mulher, que embora estivesse de costas, identifiquei-a como sendo a dona do jardim.
Ela carregava um balde e um enorme saco. De repente ela parou. Fiquei assustado e resolvi me esconder, pois, não queria ser visto bisbilhotando. Quando olhei novamente, vi que deixava cair o saco e com o conteúdo do balde, regava as flores menores. Percebi que conforme a rega das flores avançava, os bramidos diminuíam. Imaginei que poderiam ser os pequenos animais e insetos que estivessem por ali procurado refúgio nas arvores maiores, porque era de lá que se ouvia os urros mais intensos. Eram um tanto assustadores. Para ser sincero, eram muito assustadores .
A mulher dirigia-se apressadamente para lá carregando com dificuldade o enorme saco, quando repentinamente uma explosão, um estrondo imenso no céu. Fiquei horrorizado. Meu coração quase saltou pela boca. Era uma tempestade que estava se anunciando. E, numa fração de segundo na claridade de um relâmpago maior, pensei ter visto entre as árvores animais famintos em seus troncos e, novamente estremeci com o horror da cena. Quando desviei o olhar, vi a mulher retirar do saco uma cabeça humana e joga-la na direção das árvores. Apavorado, percebi que era o alimento daquelas árvores e imediatamente recoloquei a tábua do tapume para não ser visto.
Não podia acreditar no que presenciara. Aguardei novamente o clarão do relâmpago, retirei novamente a tábua, e vi a estranha mulher alimentando outra árvore. Agora com a minha cabeça.

Nesta época de carnaval, sempre temos um significativo aumento nas estatísticas de acidentes de trânsito, mortes ou até mesmo pequenas discussões. As campanhas de prevenção crescem a cada ano, e por mais criativas, intensas ou agressivas que possam ser, são ignoradas de modo geral, pois a maioria das pessoas acredita que não são destinadas a elas e sim aos imprudentes. As intenções no carnaval geralmente são boas. Sejam para se divertir, viajar, rever amigos ou simplesmente para tirar alguns dias de folga para descansar.
Uma boa intenção, porém, pode levar a graves conseqüências, e é nesta hora que devemos lembrar da cautela. A prudência quer que respondamos não apenas por nossas intenções ou pelas conseqüências de nossos atos, mas especialmente que consideremos à incerteza, o risco, o acaso e o desconhecido. Ela recomenda que estejamos atentos, não apenas ao que acontece, mas ao que pode acontecer. Não se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto, pois a vida impõe sua lei, seus obstáculos e para sermos razoáveis devemos, através da prudência, levar tudo isso em conta.
À imprudência no trânsito é responsável por muitos dramas que poderiam ser evitados. Um pai que ama seu filho, ou um filho que ama seu pai poderia evitá-lo. Ele, o pai, sabe que é responsável pelos atos de seu filho, mesmo não estando presente. Independente da idade do seu filho.
No carnaval os corpos se buscam mais. Aumentam as oportunidades de novos relacionamentos sexuais, mais livres e fugazes. Este é um cenário favorável para a disseminação das doenças sexualmente transmissíveis como a AIDS. Uma relação que em si, não seria condenável, sem prudência pode vir a sê-la, claro que não pelos prazeres que proporciona, mas pelos riscos que ocasiona, ou faz o outro correr.
Certamente a prudência não impede o risco e nem evita o perigo, mas deve ser utilizada como um farol que ilumina o caminho, um meio para nos conduzir ao futuro. Diante disso, o que devemos neste carnaval é lembrar dessa virtude, que nos ensina inicialmente a não prejudicar a si e nem o próximo. Não agindo por impulsos. A prudência é uma virtude de paciência e antecipação, que tanto significa prever como prover no momento favorável sem deixar de viver.
Com prudência podemos desfrutar o máximo possível, sofrer o menos possível, levando em conta as realidades e incertezas da vida.
Até os românticos, excetuando o amor, é claro, concordam que devemos ser prudentes. Ser prudente não significa ser covarde, significa ser esperto, é ter uma boa chance de ficar vivo par curtir muitos outros carnavais.

No interior de Nova Bassano, minha cidade natal, existe um local chamado Boa-Fé. Na infância achei que as pessoas que lá habitavam, tinham uma fé superior, mais pura e saudável, ou seja, uma devoção religiosa maior e melhor que a minha.
Desde muito moleque, meus pais sempre me ensinaram que é preciso honrar a palavra. Diziam: palavra dada é palavra a ser honrada, mais vale um “fio de bigode” que mil papéis e advogados.
Na adolescência passei a acreditar que o nome se devia ao fato das pessoas daquela comunidade serem honestas, honradas e mais cumpridoras da palavra empenhada.
Não entendia muito bem essas palavras, mas foi o suficiente para que me tornasse um adulto e confiasse na palavra empenhada. Até algum tempo, que prefiro não quantificar, promessa para mim significava palavra empenhada, consequentemente compromisso honrado.
Pra ser sincero, não tenho certeza se realmente faz muito tempo, ou se fui ingênuo por tempo demais. Mas, tenho a convicção de que para o meu pai isso ainda vale até hoje. Assim como para muitos gaúchos que ainda fazem seus negócios na base do fio de bigode.
Eu havia esquecido daquela comunidade, e até hoje não sei exatamente a origem do nome, mas acredito que seja uma homenagem a Nossa Senhora da Boa-Fé - mas certamente a palavra boa-fé não significa somente a tendência das pessoas em acreditar em tudo e em todos.
Hoje dificilmente encontramos entre os mais jovens, alguém que confie em um tratado qualquer que se baseie no “fio de bigode”. Entretanto, quando ouvimos uma promessa que venha ao encontro do que pensamos ou queremos, nossa mente nos leva a acreditar que vai ser honrada, assim como naquele velho e bom tempo.
E, somente algum tempo depois é que percebemos que fomos enganados e traídos. Um exemplo disso é o que pode ser observado nesse início de novos mandatos políticos. Um momento no qual esperamos que os compromissos assumidos na campanha sejam honrados. No entanto, já no primeiro dia de novo congresso, descobrimos que o representante que ajudamos a eleger não é mais da situação, ou quem era da oposição já passou estrategicamente para situação.
O mesmo ocorre como os novos governos que dizem herdar uma situação financeira muito pior, do que diz quem a deixou. E outra vez, impossibilidade de cumprir as promessas.
Neste caso, inicialmente são apresentados vários números, com diferenças de várias dezenas de bilhões, como se fossem um pequeno errinho. Posteriormente surgem novos números, ainda mais divergentes, deixando qualquer um ainda mais confuso.
Os órgãos fiscalizadores nessa hora nunca se pronunciam, afinal, para que existem se não podem certificar nenhum dos números apresentados, embora pelo menos um tenha o dever constitucional de posteriormente julga-los.
É nessa confusão de números e a velha desculpa de sustentar a governabilidade que os compromissos assumidos, encontram as justificativas para não serem honrados.
Não acredito que as promessas, ou pelos menos a maior parte delas, sejam feitas somente para se elegerem, ou seja, com a prévia intenção de não serem cumpridas, a chamada má-fé. Penso que realmente tinham a intenção de cumpri-las, isto é, que as promessas foram feitas de boa-fé.
A boa-fé pressupõe que aquilo que esta sendo prometido realmente seja o que se acredita. Neste caso ela equivale à certeza.
Talvez a distância entre a promessa e a prática possa ser entendida pela boa-fé. Uma vez que ser de boa-fé não é dizer a verdade sempre, pois podemos estar enganados, mas é dizer a verdade sobre o que cremos, ainda que essa crença possa ser falsa, assim mesmo não deixaria de ser menos verdadeira. O importante é não aceitar e nem agir como enganador, mas sempre de boa-fé. Mesmo que a causa seja para uma boa finalidade. A mentirinha às vezes simplificadora, ou a promessa não cumprida, será sempre condenável.
Mantendo a tradição familiar, Motivaldo, filho único, ingressou no serviço público há mais de trinta anos. Uma época em que a estabilidade e a aposentadoria integral ainda não eram tão valorizadas e a competividade por uma vaga não era tão concorrida.
Sentia-se orgulhoso pela investidura em cargo público, por prestar serviços para o governo, em especial ao cidadão.
Ser um servidor significava garantia de estabilidade, receber uma remuneração superior, comparado com o mercado da iniciativa privada e principalmente pela segurança e tranqüilidade. Sua única preocupação era com a família, e construir uma sólida carreira pública, assim como fizeram seus pais e avós.
Diariamente, no final do expediente, retornava para casa com a satisfação do dever comprido. Enfim, sua vida estava seguindo todas as etapas que havia planejado.
Vieram às mudanças políticas, a alternância do poder já era possível, uma grata satisfação, embora tivesse que ser contida, pois era um servidor do povo e não de um governo.
Presenciou a corrida em busca da estabilidade que ele já havia conquistado. O despertar do povo pelos seus direitos e a ampliação dos serviços públicos com tranqüilidade era a evolução natural da sociedade.
A economia brincava na montanha russa, a família aumentou e as necessidades dispararam.
Aos poucos, foi percebendo que seu planejamento não estava seguindo o rumo traçado. Fatores externos ao seu domínio começavam interferir. As incertezas e o dinamismo dos cenários obrigavam-no a replanejar a vida constantemente.
Se por um lado a alegria pela alternância do poder concretizava um sonho e a democracia se fortalecia, de outro as descontinuidades das políticas públicas frustravam.
Cada governo trazia a mágica solução que acabava anos depois, sem ser realizada. Além de ganhar novos colegas, sempre muito bem respaldados e geralmente pouco credenciados profissionalmente para a função. Esses eram os escolhidos para liderar a mágica, eram os servidores em cargo de confiança, os tão questionados CCs.
Quanto mais lideranças formais e especialmente informais ingressavam na repartição, suas oportunidades despencavam. Apesar de que, em certo modo, era beneficiado com esses ingressos, porque novas amizades surgiam e traziam algumas modestas inovações de gestão. Foi a única forma de reciclagem de suas atribuições desde o seu ingresso no órgão.
Com o passar dos anos, até esses “benefícios” deixaram de ser repassados, e a remuneração decaia na mesma proporção que a dedicação ao trabalho.
Sua motivação já estava a sete palmos, e até mesmo o próprio nome não podia mais ser honrado. A moral juntou-se com a conta bancária na UTI, assim como sua condição de “servir”.
Diariamente Motivaldo via os serviços que os cidadãos necessitavam serem ignorados, embora já os tivessem pagado. Assim como o drama daqueles que dependem do serviço público para sobreviver. Dramas que, aliás, se multiplicavam dia após dia. Casos como os de pessoas que sentiam a vida escorrendo pelas próprias mãos, por falta de atendimento ou do medicamento que poderia salva-los. Essas cenas eram como uma tortura. Incapacitado para ajudar, sentia toda a esperança dessas pessoas ser depositada em suas costas.
No entanto, Motivaldo sabia que a situação era muito complexa. Não havia uma solução mágica, porém ainda acreditava no poder do bom trabalho.
Além de ser um servidor comprometido e dedicado, utilizou inúmeras vezes materiais próprios para melhorar o trabalho. No entanto, esse esforço já não era mais reconhecido, pelo contrário, consideravam-no incompetente, alienado e incapaz.
Mas nada lhe decepcionava mais do que ter de ouvir os desaforos e insultos do cidadão insatisfeito, apesar de todo o seu empenho e dedicação. Como se não fosse um cidadão com problemas, necessidades e família como o reclamante. Assim como ele, muitos colegas, inclusive os que imaginavam possuir a varinha mágica, dedicam-se exaustivamente ao trabalho. Mas, apesar de todo o esforço, o resultado era mínimo ou até nulo, pois tinham que arrastar um quantitativo cada vez maior de colegas desmotivados. Colegas que tinham como única motivação a recompensa salarial. Ficavam aguardando o aumento da remuneração para realizar o trabalho. Como se isso não fosse um círculo, neste caso, vicioso, do qual faziam parte.
Diante disso, Motivaldo não tem mais forças para ressuscitar a motivação e a saúde. Não agüenta mais tanto esforço, não tem opção e não pode mais esperar, apesar de acreditar no novo jeito… de motivar.
Entre um chimarrão e outro, acompanha pelo jornal a introdução de novas formas de gestão, enquanto cuida dos netos e da filha que estuda para um concurso.
Não lhe faltam esperanças na recuperação das funções do poder público, embora temeroso que não possa ser atendido quando precisar.
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