Caminhos

“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” Arthur Schopenhauer. Revisão Textual de Rosi Gotz.

29.4.07

O Filho do Padre

O Filho do Padre

As visitas semestrais não serviam apenas para realizar os batizados, casamentos, bênçãos e demais funções da igreja, mas também para administrar os conflitos e as desavenças entre os colonos. O padre era a autoridade máxima naquela região. O verdadeiro representante de Deus na terra.
Aproveitava as visitas à colônia para fartar-se de salame, pão, polenta e, é claro, do vinho tinto.
A comida oferecida pelos fiéis, altamente calórica, acumulava-se no abdômen do sossegado padre, fazendo com que a batina tivesse que ser trocada com bastante freqüência. Enquanto que no ajudante, responsável pelas rédeas das mulas e demais apetrechos de viajem, as calorias eram a fonte da energia gasta com trabalho diário.
A barriga crescia dia após dia. E, não havendo mais meios para disfarçá-la, virou motivo de comentários entre os fies, deixando-o em constante preocupação. A alternativa seria aproveitar a visita que faria ao bispo na capital, e fazer uma consulta médica na Santa Casa.
O volumoso abdômen logo despertou o interesse de alguns médicos recém formados, ávidos para investigar novos casos.
A enorme pança era muito desproporcional ao porte físico do padre, logo virou motivo de zombaria entre os doutores residentes.
Vicente, o mais alegre dos jovens médicos, um ateu de carteirinha, jamais perdia uma oportunidade para aprontar um barulho.
Intencionalmente falou no ouvido do colega com uma sonoridade suficiente para que o padre pudesse ouvir.
-Isso só pode ser um daqueles casos de gravidez masculina que descobriram recentemente no velho mundo.
O padre, com o seu ouvido de tísico, imediatamente disparou.
- A igreja instituiu o matrimonio entre homem e mulher e, com a bênção de Deus procriar. É uma blasfema dizer que homem engravida.
Apesar da pouca idade, o médico sagaz insistiu na brincadeira.
- Padre! Estudos recentes demonstraram que em casos raros, o homem pode apresentar útero e até gerar uma vida.
Vendo o espanto do padre, senti-se incentivado para continuar.
- Recentemente numa cirurgia exploratória em um homem de quarenta e poucos anos, foi retirado de sua barriga um bebê saudável pesando mais de três quilos e meio.
O padre arregalava cada vez mais os olhos. Já o médico, fazia um enorme esforço para manter-se com a seriedade necessária, e continuava a explicação:
- A hipótese mais provável é que em alguns casos, como em certos vegetais, por exemplo, e outros pequenos animais, é possível que um único ser vivo apresente os dois sexos, possibilitando a fecundação interna silenciosa. Essas descobertas científicas ainda não foram aprofundadas, mas são utilizadas pela comunidade científica para explicar esses casos e, possivelmente o seu. Não é mesmo?
As palavras proferidas pelo doutor Vicente com tanta “seriedade”, foram aceitas pela ignorância médica do padre e avalizadas pelo silêncio dos demais médicos. Logo, se considerou um desses casos e descartou qualquer outra hipótese.
Os doutores retiram-se da pequena enfermaria e “rolaram” de tanto rir.
No dia seguinte, acompanhados pelo médico preceptor, não discutiram o diagnóstico na frente do paciente, simplesmente receitaram-lhe alguns medicamentos e muitas recomendações típicas de uma reeducação alimentar.
Ouviu atentamente, limitando-se a confirmar que havia compreendido as orientações, inclusive a de retornar em três meses para nova avaliação.
Retomou suas atividades junto aos colonos com as palavras do doutor Vicente, lhe martelando a cabeça. A ansiedade era tanta que abriu-lhe ainda mais o aguçado apetite e, obviamente fazendo com que a barriga crescesse significativamente.
Passados três meses, o padre, preocupado, retorna à Santa Casa garantindo que seguira todas as recomendações. Embora aquela protuberância abdominal fosse uma evidência contrária.
Na inexistência dos atuais equipamentos de diagnóstico e imagem, o procedimento de investigação só podia ser feito através de cirurgia. Nesse caso, o consenso da equipe foi optar por uma cirurgia “exploratória” para eliminar qualquer possibilidade de tumor ou algo similar. A cirurgia foi realizada e nada foi constatado, a não ser uma enorme camada de gordura que envolvia suas entranhas. Não havia nada de “errado” com aquela barriga. A solução estaria apenas numa dieta.
O jovem médico, que posteriormente viria a ser banido da instituição, resolveu brincar um pouco mais com o padre, supostamente “gravido”.
Aproveitando o efeito da precária anestesia, apanhou no berçário uma criança recém retirada da roda dos excluídos e colocou-a em seus braços.
Ao acordar com o bebê nos braços, o sacerdote praticamente surtou.
Surpreendendo até mesmo o médico zombeteiro. O padre se afeiçoou imediatamente à criança e pegou gosto pela possibilidade de criar “o filho”.
Agora a brincadeira havia ficado séria. Vicente e os colegas já não achavam mais tanta graça. Resolveram aproveitar a vergonha do padre para abafar o caso e manter a versão da gravidez. Afinal, estavam possibilitando um lar àquela pobre criança abandonada. Coincidentemente, a pedido do próprio, o assunto foi tratado como adoção num ato de generosidade do religioso.
Os jovens médicos selaram um pacto para que nunca mais se falasse no assunto, pois consideraram um final perfeito para aquela infeliz brincadeira.
Com o passar dos anos, a criança cresceu aos cuidados do padre e seu fiel ajudante. Estudou nos bons colégios da região e freqüentou os mais diversos ambientes, tornando-se prematuramente um adulto inteligente e experiente.
Num final de tarde quente, o padre já sem condições de manter-se em pé e vendo a morte chegar, chamou Agostinho para uma conversa séria.
Após inúmeros rodeios e incentivos ao rapaz, criou coragem e falou.
- Agostinho. - recebeu este nome em homenagem ao santo – tenho uma revelação importante para lhe fazer, antes que eu morra.
Agostinho ouviu calado. Era como se já estivesse esperando por aquela conversa.
Diante do silêncio do rapaz, continuou.
- Você é meu filho!
Sem demonstrar qualquer surpresa, até mesmo na expressão, em seguida falou.
-Eu já sabia meu pai, na verdade sempre desconfiei. Não se preocupe, esta tudo bem.
-Não filho. Eu não sou teu pai. Sou tua mãe. Teu pai, é o coroinha.

criado por Jair Antonio Pauletto    1:59 — Arquivado em: Contos

23.4.07

Amor Pérfido

Amor Pérfido

Estava apressado e, despediu-se no portão. Não queria perder o último bonde que o levaria até o morro. Precisava estar descansado para o trabalho das 07h30min do dia seguinte. Perder o emprego a uma altura dessas, jamais poderia ser cogitado, pois resolvera se casar. As despesas iriam aumentar, aliás, já aumentaram com a compra dos móveis para casa nova. Os últimos preparativos que acabaram de acertar, ficaram no orçamento que ele previra e no gosto que ela queria. Até nisso os dois combinavam. Não tinham a menor dúvida de que seria a oficialização de um relacionamento feliz.
Envolto nesses pensamentos, quase perdeu o bonde, mas conseguiu um lugar, sentado e continuo naquele sonho. Lembrou como o destino os juntara das alegrias daqueles anos de namoro, dos preparativos para o sábado de festa e a sonhada família que iriam construir.
Desceu no pé do morro. Todavia, havia mais uma longa escadaria a escalar para chegar ao casebre humilde de sua mãe. Seria sua última semana naquele lugar, visto que, no sábado após o casamento, já estaria em um novo lar e endereço. Um modesto lar, mas elegante. Um lugar onde também passariam à lua de mel. O conjunto residencial ficava na zona sul, muito próximo à natureza e distante do corre-corre do centro.
O casal resolveu substituir a viajem da lua de mel, para comprar uma televisão. Um luxo para poucos na vizinhança. Na semana seguinte, segunda-feira após o trabalho, Paulo, um amigo de infância, se predispôs a colaborar. Ajudou a carregar aquele aparelho pesadíssimo da loja até a nova residência, assim economizaria o frete da entrega. Apresentou a casa ao amigo, agradeceu e despediram-se. Ansioso com a nova aquisição, resolveu instalar o aparelho.
A emoção e o significado de mais uma conquista, levaram-no a esquecer das horas e perdeu o bonde. Como não havia alternativa, teria que passar a noite ali mesmo na nova casa. Saiu para comprar um lanche e uns produtos de higiene pessoal. Ao entrar no primeiro armazém que encontrou, deu de cara com Juliete, uma antiga colega do colégio. Em poucos minutos de conversa, já haviam resgatado a velha intimidade. Falou sobre o seu casamento, do ingresso na faculdade, das lembranças de alguns amigos e pra finalizar, descobriram que seriam vizinhos.
Ela, toda orgulhosa, gabava-se de sua independência. Morava sozinha num apartamento nos fundos ao do Marcio. Insistiu tanto pra conhecer o apartamento que não teve alternativa, foi conhecê-lo, mas, acabou conhecendo muito mais.
Gostou tanto do “cantinho” da Juliete, que passaria a freqüentá-lo durante o resto da semana. Chegou atrasado ao trabalho e, intrigantemente feliz.
Passou o dia todo se culpando por aquela traição e jurando que aquilo jamais aconteceria novamente. No final do expediente, descobriu que não podia cumprir o juramento, foi direto para a casa de Juliete jurar-lhe amor eterno.
Não queria dizer aquilo, mas as palavras fluíam naturalmente da sua boca, vindas do seu coração saltitante. Não tinha nenhuma dúvida que a amava, assim como, também sabia que estava sendo retribuído. Acreditavam que a laranja estava completa.
Os colegas atribuíam tamanha felicidade a proximidade do casamento, mas a razão mesmo, era a Juliete. Márcio sabia disso, mas não ousava nem pensar no assunto, casamento. Queria que o tempo parasse com ele e Juliete juntos. Nada mais seria necessário poderiam viver somente do amor e nada mais os impediria para serem felizes. Sentia-se um gladiador gigante, capaz de enfrentar qualquer batalha. A prudência que sempre o guiou, agora era vista como medo. Medo de viver e de prosperar. De amar um medo, que não existia mais. Agora tinha certeza que seria feliz.
Na sexta-feira, haviam combinado um jantar especial regado a vinho. O vinho foi mantido, mas o jantar especial acabou num sanduíche caseiro. Em pouco tempo, foram vencidos pelo vinho. Adormeceram trocando e complementando sonhos. Havia sonhado com a amada Juliete. Acordou cedo, beijou-lhe a face, os lábios e saiu apressado. Ao subir a escadaria do morro, encontrou sua mãe que já o esperava na porta. Márcio vestiu-se e foi direto para a igreja.

criado por Jair Antonio Pauletto    11:22 — Arquivado em: Contos

16.4.07

A Felicidade em Ser

A Felicidade em Ser

Todo final de semana era aquela discussão. A esposa reclamava daquele grupo de jovens que se aglomerava em frente à porta de sua casa. O marido sempre respondia alguma coisa bem humorada que ela nunca escutava.
À medida que chegavam, ela simpaticamente os convidava para entrar, embora soubesse que preferiam “curtir” o luar e se acomodariam lá fora mesmo. Algumas sentavam-se na escada, já outros, espalhavam-se com as cadeiras entre as ralas flores do jardim. Nos dias em que o orvalho tardava, acomodavam-se no gramado. Como se estivessem num acampamento.
Não havia um assunto a ser discutido, somente uma bate papo regado de abundantes gargalhadas, amendoim torrado, às vezes substituído por uma pipoca caramelada e, é claro, a tradicional cuia de chimarrão que circulava de mão em mão. Um pequeno grupo apreciava o mate, porém doce. Motivo de zombaria dos “verdadeiros” apreciadores do chimarrão.
O encontro só acabava quando o orvalho engrossava. Nas noites de verão, significava altas horas da madrugada.
Outra opção de entretenimento desse grupo era o futebol nas tardes de domingo com a comunidade vizinha, como seus adversários. Essa era uma das principais diversões dos rapazes. As moças jogavam vôlei ou, simplesmente jogavam conversa fora, esperando o final da tarde chegar. Hora em que retornavam para casa a passos lentos, esperando que alguns dos meninos menos tímidos as alçassem e as acompanhassem até próximo ao portão de suas casas.
A rotina desses jovens, todo o final de semana era a mesma. Os assuntos novos que surgiam, eram ruminados individualmente durante a semana para serem amplamente “debatidos” nessas rodas de chimarrão. Seu Bepi não entendia por qual razão se reunirem em sua pequena propriedade. Seus filhos sequer eram adultos. Mas, sentia-se feliz por recebê-los, naquele ambiente agradável e acolhedor.
Eram jovens trabalhadores que confiavam num futuro melhor. Com sonhos, esperanças e desafios típicos da idade. Confiavam, embora inconscientemente, em seus potenciais. Carregavam a certeza de que a vida lhes proporcionaria as oportunidades que mereciam e que saberiam aproveita-las quando fosse à hora.
Poucos não seguiriam o destino dos pais, ou seja, trabalhar a terra, festejar as datas religiosas na comunidade e, eventualmente assistir um jogo da dupla grenal em uma cidade próxima, na companhia de um parente.
Os poucos que quebravam esse destino eram o orgulho dos familiares e geralmente motivo de ciúmes dos velhos amigos. Poucos conseguiam unir as duas coisas.
Mas, havia algo que sempre me intrigava nessas pessoas. No seu modo de viver. Observava que se sentiam realizadas e felizes, embora eu não conseguisse ver as razões para tanto. Afinal, onde estava à diversão, a cultura, o conhecimento e o “sucesso profissional” dessas pessoas?
Anos depois, em uma visita à casa dos meus pais, percebi que não havia ninguém que conhecia entre os doutores, diretores, professores ou os altos executivos, tão feliz como aquelas pessoas.
Na ocasião, observei que as rodas de chimarrão haviam sido transferidas do nosso jardim para o salão comunitário, mas, que continuavam as mesmas, exceto o local e do acréscimo de algumas bebidas.
Fiquei impressionado e ao mesmo tempo muito feliz, como a inocência estava preservada naquelas pessoas.
Jovens, agora respeitáveis pais de família, levavam sua árdua jornada com tanta naturalidade que pareciam não pertencer ao mundo que eu conhecia. Suas aparências castigadas pelo sol e as árduas tarefas diárias, escondiam almas puras, inocentes e surpreendentemente felizes.
Foram necessários muitos anos para compreender o que sempre fora me dito nos mais diversos lugares que procurei (religião, livros, cursos, seminários,…).
Finalmente, entendi que a felicidade esta nas pequenas coisas.
Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.
Sem dúvida, era o estado de espírito de meu pai que atraia o grupo de jovens para aquelas alegres noitadas. Essa era a prova de que felicidade atrai felicidade, apesar de conviver com ela na infância, eu só fui entendê-la mais tarde, justamente no momento que o ter perdeu importância e o ser tomou seu espaço. Antes, o ter era prioridade para o ser. Hoje, o ser me levou ao ter e a compreender que aquelas pessoas sempre foram muito mais sábias que eu, pois conheciam essa ordem.
Como é triste observar que em pleno século XXI, grande parte da humanidade ainda coloca o ter a frente do ser. Mas não há atitude mais infeliz que não conseguir ser, nem ter, mas, querer parecer. Pense nisso

criado por Jair Antonio Pauletto    9:55 — Arquivado em: Artigos

12.4.07

Repensando o Nada

Repensando o Nada

Sempre que alguém está estressado, a família e os colegas sugerem férias. O que geralmente mais se ouve é ”saia de férias, descanse um pouco e não pense em nada”.
Acredito que a intenção do “não pense em nada” seja de que o estressado possa sair da rotina e descansar sem precisar se preocupar com os assuntos que o levaram a essa situação.
Mas, nessas palavras há muito mais que isso, pois se o nosso estressado parar pra pensar no nada, ficaria estressado e acabaria internado numa casa de saúde por algum tipo de insanidade.
Não há nada mais original que o nada, pois se “no principio só existia o nada”, então o nada é a origem de tudo. Sendo o que deu origem a tanta diversidade, como poderia ser nada? Seguindo esse raciocínio ou inúmeros outros, realmente não seria possível descansar e certamente o estresse só aumentaria.
Se não tiver o que pensar, tente pensar no que é o nada. Garanto que não haverá nada mais difícil de definir do que o nada.
Como já dizia o filosofo, - “nada é uma faca sem lâmina, da qual se retira o cabo”. Sem pretensão de contrariá-lo, este dito não passa de uma bela definição, já que, o nada continuaria sendo nada. Ai esta um caminho rápido para a loucura, seja com o nada ou com qualquer outra definição.
Seguindo o raciocínio de Lichtenberg, nada é uma palavra na qual se retira as quatro letras, ou será uma palavra sem consoantes no qual se retira o a? Mas aí, o nada não seria duas coisas? Seria o nada uma possibilidade, para o que quisermos? Realmente o nada é muita coisa. Não há nada mais vago que o nada e nada mais improdutivo que aprofundar-se no nada.
Nada poderia ser objeto de um texto muito mais amplo, mas certamente em nada acrescentaria ao próprio nada. Portanto nada mais tenho a escrever.

criado por Jair Antonio Pauletto    17:31 — Arquivado em: Artigos

Amar e Desejar

 

O Homem ama a pureza, mas deseja o impuro.

 

 

criado por Jair Antonio Pauletto    11:29 — Arquivado em: Pensamentos

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