Caminhos

“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” Arthur Schopenhauer. Revisão Textual de Rosi Gotz.

27.6.07

Apelação

Apelação

Excitado, o sangue borbulha.

O pensamento, traz a lembrança

Do calor da primeira fagulha

Que se instalou no meu coração

E virou um incêndio sem igual proporção.

O tempo aliou razão e emoção,

Fixando amor e desejo no coração.

Sedenta, a boca não agüenta.

Quer seu beijo chocolate e pimenta.

A vontade procura entre flores e espinhos.

O melhor caminho é rumar para seus braços.

Levando muito carinho, amor, paixão…

Para construir o nosso ninho.

Então, me tome logo por inteiro…

E acabe com meu desespero.

Atenda este apelo derradeiro

E venha para mim por inteira,

Para viver este amor

Tão verdadeiro.

Veja também: Pauletto J. A

criado por Jair Antonio Pauletto    23:23 — Arquivado em: Pensamentos

25.6.07

Camisa de Festa

 

Camisa de Festa

A festa seria o maior acontecimento do ano. Para sua 171ª edição, eram esperadas mais de mil pessoas. Os habitantes dos povoados vizinhos, eram os primeiros a chegar no local. Os mais apressados, apareciam com os primeiros raios de sol.

Uma semana antes do evento, a comunidade reunia-se diariamente para organizar os detalhes da festa, que consistia basicamente em limpar, ornamentar o salão, podar as árvores e aparar o gramado.

O dedicado Juca, sempre participava da organização do evento e, após vários anos, finalmente foi indicado para a comissão organizadora que, por sua vez, era escolhida dentre os membros da comunidade.

Juca empolgou-se tanto com a indicação, que só foi lembrar que precisava de uma camisa nova, três dias antes do evento. No final da tarde, depois de ter dedicado o dia de trabalho à festa, foi ao alfaiate, que ficava num povoado vizinho.

Chegando lá, tirou às medidas mas, antes de confirmar preço,o alfaiate lhe respondeu.

- Vai ficar pronta na terça-feira.

- Terça-feira? Não. Não pode. Preciso dessa camisa para domingo.

- Impossível meu rapaz. Estou abarrotado de encomendas para o Imperador,e sabes como é, se eu não atendê-lo no prazo, ele me expulsa de suas terras.

- Compreendo, mas eu tenho uma festa para ir no domingo.

- Olha meu amigo, infelizmente eu não posso lhe ajudar, mas sugiro que compres uma camisa já pronta. O Zéca do armazém de secos e molhados também vende camisas, fica logo ali, no povoado Miss Brasil.

Com o seu desejo interrompido, voltou para casa. À noite, apesar do cansaço, demorou para pegar no sono, pois os preparativos para a festa lhe invadiam o pensamento incessantemente. Acordou atrasado, e foi imediatamente para o Miss Brasil. Dobrou a esquina, e lá estava o armazém, na verdade, o único. Aguardou o proprietário terminar de abrir o estabelecimento e entrou. Olhou em sua volta, e pediu ao seu Zéca a tal camisa "pronta".

Em poucos minutos, visivelmente triste, saiu do armazém e foi para sua casa apressado, pois queria chegar antes do anoitecer e descansar para a festa no dia seguinte.

No domingo, levantou cedo e foi se certificar de que tudo estaria devidamente organizado. A caminho do local, passou pela casa do vizinho que, ao avistá-lo, logo saiu gritando.

- Juca, cadê a camisa nova?

- Não comprei. Faltou tempo.

- Como, faltou tempo? Você não foi comprá-la ontem no Miss Brasil?

- Fui sim, vizinho. É que eu esqueci de levar as medidas, deixei-as em casa.

- E, porque não comprou assim mesmo?

- Ora! Vizinho. Como eu iria comprá-la, se eu não tinha as medidas comigo? E, você sabe, eu confio no meu alfaiate.

- É vizinho, você está certo. Ultimamente não dá para confiar em ninguém mesmo.

- O pior, meu amigo, é gastar dinheiro com uma camisa e depois ter que correr o risco de não poder usá-la.

- Você é mesmo sabido, hein, Vizinho!

Apontado para a própria camisa, Juca ainda complementa.

- Sou mesmo. Além do mais, a que estou usando, ainda parece nova.

Assim, os dois apressam o passo e seguem calados para a festa.

criado por Jair Antonio Pauletto    23:05 — Arquivado em: Contos

21.6.07

Bumerangue

A raiva e a inveja são as duas asas do mesmo bumerangue.

criado por Jair Antonio Pauletto    22:51 — Arquivado em: Pensamentos

19.6.07

Espaços Individuais

 

Espaços Individuais

Desde os primórdios, homens e mulheres desempenham diferentes funções, responsáveis por pequenas diferenças em sua estrutura física e mental.
O homem primitivo precisava ir à caça, com isso precisou desenvolver sua orientação espacial para calcular, tamanho, posição e distância da caça. A mulher, além de permanecer na caverna para cuidar dos filhos, da alimentação, ficava atenta aos perigos. Fazia tudo ao mesmo tempo, construindo assim, uma rede de conexões neurais maior.
A verdade é que temos estruturas e desenvolvemos algumas habilidades um pouco mais específicas, mas ninguém é melhor ou pior. Somos diferentes justamente para complementar-nos e, não para nos queixarmos uns dos outros. E primordial que possamos nos conhecer melhor e entender que pequenas diferenças podem ser utilizadas para criarmos uma ligação maior, mais forte e indestrutível.
Nossas relações sempre geram algum transtorno, o que é natural e até benéfico para nosso crescimento. No entanto, para que possam ser superados com maior facilidade, é fundamental que a constituição físico-neural de cada um seja considerada. Atualmente, esse conhecimento esta facilmente disponível. Há vários e bons livros que de forma simples e bem humorados, destacam essas diferenças. Quando se tornam obstáculos, elas poderão ser facilmente removidas, pois dispomos de inúmeras ferramentas que auxiliam, cada vez mais, para construirmos convivências harmoniosas. Obviamente que existem vários outros fatores que compõem as relações. Os de caráter sentimental, em última análise, são os que vão realmente determinar a qualidade deste convívio. Essas questões são objeto de estudo e aplicação de qualificados profissionais da área, que embora tenham avançado significativamente, certamente ainda estão longe de consenso.
Atrevo-me a afirmar, que muitos dos problemas de relacionamento, não necessariamente entre casais, são advindos da falta de compreensão do espaço individual. Refiro-me especificamente ao espaço que precisamos em nossas vidas. Aquele espaço que é só seu. Onde apenas você desenvolve sua individualidade. Acontece que, quanto mais intimo é o convívio interpessoal, maior será a interação e a freqüência com que este espaço é invadido. Todavia, se este compartilhamento de espaços envolver: desejo, sonho, necessidade, amor ou qualquer outro interesse comum e, for proporcional, resultará numa relação saudável e conseqüentemente duradoura.
Quando esse conjunto de necessidades encontra reciprocidade nas pessoas com as quais nos relacionamos, se constitui a liga para um relacionamento de reciprocidade, fruto da intersecção do conjunto individual de ambos, formando-se um terceiro conjunto. É este “subconjunto” que irá mantê-los unidos e a qualidade deste relacionamento será afetada pela intensidade e tamanho deste espaço.
Geralmente, a primeira ação, especialmente quando se está apaixonado, ou se quer fortalecer um relacionamento, é tentar ampliar este novo espaço. É lógico que quanto maior o compartilhamento, mais forte será a relação. E, quanto maior este espaço, melhor e mais forte será a relação. Somos levados a acreditar que o ideal seria eliminar os dois espaços individuais e formar um único espaço. Seria como juntar a duas metades da mesma laranja.
Mas, como já passamos pela “laranja”, evoluímos e, estamos num estágio superior, essa metáfora não serve para explicar um relacionamento ideal. Este raciocínio, apesar de parecer lógico, é falso. Justamente por parecer correto é de difícil abandono e acaba por levar à dissolução muitos relacionamentos.
Contudo, o problema está em nos anularmos como seres individuais, únicos e responsáveis pela própria caminhada evolutiva. Quando o subconjunto que representa a intersecção dos espaços individuais se sobrepõe ao individual, uma das partes da relação passa a ser anulada ou se anula.
Relacionamentos com este tipo de alicerce sempre desmoronam. É uma viajem rumo ao fracasso. Assim, se a felicidade está em seguirmos nosso caminho evolutivo, no processo de individuação, jamais estará presente em uma relação de anulação.
É claro que acredito no poder do amor, no compartilhamento de espaços, especialmente entre um casal ou membros de uma família, mas tenho a convicção de que só um amor verdadeiro sabe estabelecer o limite entre o espaço individual e o compartilhado. È preciso cultivar relacionamentos que compartilhem, mas não anulem e, nem tentem absorver a individualidade do outro. Não podemos esquecer, que não é tomando o espaço da outra pessoa que se fortalece a relação. O segredo está em ampliarmos os espaços individuais para crescermos, sem precisar anular nenhuma das partes.
Diante disso, fica óbvio que ao restringir ou sacrificar o espaço individual seja qual for à relação, é simplesmente acelerar seu rompimento, é como querer chegar ao norte caminhando para o leste.
Por mais diferentes que possamos ser em todas as nossas dimensões humanas, o caminho para construirmos relacionamentos sólidos e felizes está em respeitar as individualidades. Com espaços maiores, aumentamos à área comum e, tornamos o relacionamento mais forte. Pense nisso.

Veja também: Ingrata

criado por Jair Antonio Pauletto    23:33 — Arquivado em: Artigos

17.6.07

Revendo a relação

A porta se abre lentamente. Gervásio ergue levemente os olhos, enquanto Danise , entra calmamente pela porta. Imediatamente percebe que o assunto não é de trabalho, e se antecipa perguntando. - O que foi meu amor?
- Nada, não! Dr. Onófero avisou que não retorna à tarde e eu preciso do seu carro, pois tenho uma consulta a fazer. Linara, minha assistente, cuida de sua agenda. Pode ser?
- Tudo bem. Mas, o que houve? Você está bem? Vai consultar?
- Está tudo bem. Vou levar o carro, então. – Respondeu com uma voz grave e deu as costas, dirigindo-se à porta.
Tentando amenizar a conversa, ele argumentou.
- Tire à tarde de folga e faça o que for preciso, meu amor. Conversamos no jantar. Teve um mau pressentimento, mas preferiu confiar no amor de Dani, em seu poder de argumentação e, continuou trabalhando.
Danise desceu até a garagem apressadamente e pegou o carro. Precisava atravessar a cidade em menos de uma hora, tarefa difícil naquele horário. Enquanto brigava com o pesado trânsito, confirmava ao celular o endereço da cartomante. Estava decidida a fazer uma consulta definitiva e provar a colega e confidente Linara que todos aqueles anos de amor ao chefe, estavam próximos de um final feliz.
Gervásio definitivamente parecia ter tomado coragem na última semana. Passaram todas as noites juntos, e ele, demonstrando-se cada dia mais atencioso e amoroso.
Finalmente, aqueles longos anos vividos com aquele amor pela metade, ficariam para trás. A alegação que os filhos ainda eram muito crianças, estava superada com o ingresso do caçula no colégio.
O caminho para Danise viver seu grande amor, parecia estar finalmente livre, se não fosse aquele telefonema interceptado involuntariamente pela amiga.
O que ele desejava tratar com ela depois de uma semana? Ao mesmo tempo em que encontrava um milhão de razões para este questionamento, a insegurança martelava-lhe a cabeça. Será que eles ainda estão juntos? Não, ele não faria isso comigo. Mas que mal faria uma consulta? Nenhuma, serviria para espantar aquela insegurança repentina e ainda provar a amiga que estava certa.
Consultar a cartomante fora uma indicação de Linara, que astuta e velha companheira do Doutor Gervásio, intimamente duvidava que ele pudesse desfazer a família pelo amor a Dani.
Linara gostava da jovem Danise como se fosse sua filha, queria vê-la feliz. Inicialmente aconselhou-a afastar-se de Gervásio, mas após algumas discussões, achou prudente calar-se.
Danise finalmente encontrou a rua, mas antes de localizar a residência, pensa em desistir, afinal, tinha provas suficientes de que era amada, sentia e sabia disso. Mas, restava o prazer de provar a amiga que estaria certa, que a infalível cartomante que lhe havia indicado, simplesmente confirmaria o que ela já sabia.
Foi recebida na porta por uma jovem, que pediu para que aguardasse na ante-sala. Alguns minutos depois, foi recebida por uma senhora muito simpática, que a conduziu atá uma pequena sala, no fundo da residência.
A simpática senhora perfumou-lhe as mãos, os punhos e a nuca. Uma toalha de um vermelho intenso cobria a pequena mesa que as separava.
A cartomante sorridente fixou o olhar e perguntou:
- Carta ou búzios, milha filha?
- Tanto faz – respondeu surpresa - não sabia que havia duas opções.
- Se não sabe o que quer, não precisava ter vindo – respondeu seriamente.
- Quero saber do meu amado. Qual a forma? tanto faz, à senhora é quem deve saber.
- Está bem filha, pressinto que devemos jogar búzios. São só dez reais a mais, mas o resultado é mais claro, eu lhe agaranto.
- Tá – foi o que a ansiedade fez saltar-lhe pela boca.
- O que quer saber, filha?
- Preciso saber se o Gervásio me ama.
A simpática senhora agora parecia outra mulher, com uma expressão séria, totalmente carregada, joga os búzios. Olha fixamente para o tabuleiro, com os búzios espalhados aleatoriamente e fala repentinamente:
- Homem bom, coração grande minha filha, sabe amar como poucos. - Sim, sim, é ele. Mas, ele me ama?
- Claro! minha filha. Ama muito.
- Obrigada, obrigada! Eu só queria confirmar isso. - Danise abre um sorriso, e involuntariamente percebe-se de pé.
- Calma filha, você pode perguntar mais,… os búzios tem muito a falar.
Danise já ouvira tudo que precisava. Receosa em perguntar mais coisas, agradece novamente.
- Obrigada, estou satisfeita. Quanto lhe devo?
- Pergunte o que gostaria de perguntar. Não vieste aqui só para isso. O que tens medo em saber?
Ao ouvir essas palavras, Danise estremeceu. Não queria saber mais nada. Imediatamente arrependeu-se por estar ali. Sentou-se novamente, sabia que não poderia sair com a mesma dúvida que a trouxera. Precisava dar um basta nesta angústia e insegurança. Estava cansada de viver pela metade.
Respirou fundo e perguntou:
- Sou a única mulher da vida dele?
- Não minha filha, há uma outra entre vocês.
Ao ouvir essas palavras sentiu como se uma lâmina lhe transpassasse o coração.
- Antes ou depois de mim? – Socorreu-se na esperança de tratar-se da ex-mulher de Gervásio.
- Antes e depois.
- Como assim? Você não sabe de nada – falou quase que aos berros.
- Calma! Eu vou lhe explicar. Há uma mulher que faz parte da vida dele, e que continuará a fazê-lo.
Danise moveu suavemente a cabeça como que interrogando.
- Ele jamais deixara essa mulher, e…
Danise levantou-se, jogou uma nota de cem reais sobre a mesa e saiu apressadamente.
Sentou-se no carro e sintonizou uma música alegre. O telefone tocou, lembrou que fora um presente dele e deixou tocar, tocar, e tocar…
Ligou o carro e dirigiu calmamente até chegar no controlador de velocidade. Onde acelerou deliciosamente, pensando na cara de Gervásio ao receber a multa. Isso a deixou um pouco aliviada. Resolvendo então, repetir o ato pelos demais controladores das avenidas, ruas e esquinas, ao som de Legião Urbana, que Gervásio odiava .
Quando o telefone voltou a tocar, não teve dúvidas em atirá-lo pela janela. De longe, percebe que está sendo observada pelos taxistas e estaciona ali mesmo, em local proibido. Calmamente se aproxima do ponto, mas antes joga a chave no ralo de ventilação dos canos de esgoto. A chave representava toda sua mágoa e o amor por Gervásio. Queria que fossem levados pelo esgoto.
Agora Dani precisava de um telefone, sapatos, bolsas e roupas novas. Pegou um táxi e foi ao shopping.

Veja também: A menina que andava de limousine

criado por Jair Antonio Pauletto    0:29 — Arquivado em: Contos

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