Caminhos

“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” Arthur Schopenhauer. Revisão Textual de Rosi Gotz.

18.10.09

Intolerância.

Intolerância.
 
Depois do terceiro chopinho a conversa fica mais leve e a mente se encarrega de voar, como a minha, que há alguns dias atrás foi parar lá na escola primária onde estudei. Na ocasião lembrei de um professor que lecionava religião cujo nome não recordo, mas fisicamente ainda poderia descrevê-lo como feio, magro, baixinho e com um enorme e bom coração, maior até que o seu próprio corpo. Ele tentava colocar nas nossas cabeças, nas dos rebeldes em especial, alguma coisa de religião. Tarefa nada fácil, pois na minha época ninguém reprovava nessa disciplina, porque éramos todos filhos de famílias extremamente católicas e o que nos ensinavam em casa ia muito além do conteúdo da aula.
Mas, retomando o assunto intolerância, aquele humilde professor de religião, quase trinta anos depois, surgiu na minha cabeça para me fazer perceber que sou intolerante desde aquele tempo. Lembrei claramente que não pude suportar uma infeliz colocação do professor, quando tentou nos mostrar a importância de estarmos sempre na graça de Deus, que dizia mais ou menos assim: “temos que estar sempre livres de qualquer pecado, pois imaginem se um dia acordarmos mortos, não haverá mais tempo para perdoar ou sermos perdoados”.
Diante dessas palavras de “acordarmos mortos” não agüentei e soltei uma baita gargalhada e repeti debochadamente várias vezes as palavras, acordar morto, acordar morto, que o pequeno professor se transformou num gigante expulsando-me da sala no mesmo instante e, é claro, no final do ano fui o único aluno que ficou com recuperação nessa disciplina, aliás, desconfio que ate hoje eu tenha sido o único ou certamente o primeiro. Esta lembrança possivelmente seja o fato mais marcante da origem da minha intolerância que, apesar de acreditar que esteja mais civilizada, ainda me incomoda em diversas situações.
A intolerância que é companheira do preconceito e da discriminação é algo inaceitável, porém existem ocasiões em que um pouco de paciência e compreensão são suficientes para resolver qualquer situação com calma e tranqüilidade, ou seja, de forma civilizada. Parece ser algo fácil de aceitar, mas na prática é algo muito difícil de ser aceita, compreendida e assimilada, basta observarmos o comportamento diante de uma fila que não anda ou de um atendente mal preparado.
No entanto, sem querer ser muito intolerante, mas já reconhecendo firmes traços deste mal, no sentido de impaciente, não consigo admitir qualquer intolerância quando se trata de diferenças de pensamentos e crenças. Neste sentido, certamente não sou intolerante, mas por outro lado não consigo tolerar a minha cunhada, por exemplo, que uma noite dessas, às 2h da madrugada me acordou com um telefonema perguntando se eu estava dormindo. Bem, no auge da minha intolerância, só podia responder: SIM, só estou te respondendo porque sou sonâmbulo. Hora, é óbvio! Se estou falando ao telefone é porque estou acordado, o que não significa que eu estivesse acordado antes do indesejável telefone tocar. Essa minha impaciente tolerância muitas vezes se manifesta sem eu mesmo perceber, o que me deixa profundamente irritado, quando em algumas situações veste-se de arrogância, presunção e insolência. Tudo isso, naturalmente, me remete a uma profunda decepção, quanto ao meu comportamento e desenvolvimento moral, mas persisto fortemente no propósito de me tornar mais compreensivo e paciente diante destas situações.
Sei que poderia ser muito mais difícil avançar se a minha intolerância fosse no campo das idéias ou da religião, algo que torna, os que a possuem pessoas extremante equivocadas em relação à individualidade e liberdade humana. O tênue traço que separa a discussão respeitosa da intolerância é a emoção, o que faz com que muitas pessoas, apesar de serem tolerantes com relação à política, sexo e religião, são extremante intolerantes com uma idéia qualquer de um familiar, amigo ou outro alguém.
Expresso essa minha falha de personalidade para comprometer-me publicamente em melhorar essa deficiência, mas principalmente para que possamos refletir e avaliar a infinidade de comportamentos indevidos que diariamente praticamos com os que nos cercam. São atitudes e pensamentos equivocados que manifestamos e silenciosamente vão se fortalecendo em nosso comportamento, impedindo que novas atitudes e ideias se manifestem, para que seja possível transformar velhas crenças em ações mais amplas, capazes de tornar a vida mais próspera e feliz.
A discussão sobre a intolerância é ampla e facilmente segue o caminho que aponta as falhas alheias, no entanto o mais difícil e o melhor a fazer é reconhecer e aprender a lidar com a própria intolerância. Boa semana. 

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criado por Jair Antonio Pauletto    21:22 — Arquivado em: Artigos, Crônicas

3.10.09

Gente fina.

 

Gente fina.                                                                           

            Muitas vezes sem saber o porquê, uma música qualquer nos invade e passamos a cantarolá-la o dia inteiro. Agora mesmo, enquanto tento me concentrar para escrever algo produtivo, tenho minha atenção desviada para os versos da música de Lulu Santos: “eu vejo um novo começo de era / de gente fina, elegante e sincera /com habilidade pra dizer mais sim / do que não…”.
            Diante disso, decidi abandonar o assunto que pretendia abordar e aceitei estes versos como um “sinal” para escrever algo mais leve, mais primaveril, ou melhor, mais gente fina, elegante e sincera, fiquei imaginando como seria uma pessoa gente fina e se conheço alguma. Embora seja muito comum utilizamos a expressão “gente fina” para qualificarmos uma pessoa, aqui, me restrinjo àquelas pessoas que só conseguimos ver boas qualidades e comportamentos adequados em qualquer situação.
            O verdadeiro gente fina vai muito além de ser o cara: ele é um uma espéciede ser superior que domina a arte de engolir sapos sem precisar digeri-los; não é prepotente ou arrogante sem ser submisso e defende-se com precisos “tapas de luva”; adapta-se ao ambiente e deixa todos à vontade em qualquer lugar.Ele transgride de modo a não agredir porque opina sem julgar; é honesto; sincero; amável, chegando às vezes, a provocar dúvida nos mais desconfiados, ou seja, classificá-lo é algo extremamente difícil e, por ser tão especial, queremos tê-lo por perto.
Essas pessoas sem dúvida, são raras e admiráveis, portanto muito imitadas requerendo, inclusive, um certo cuidado, uma vez que existem boas falsificações. Não sei se essas pessoas nascem com esse dom, chamo de dom porque me parece ser mais um presente divino do que uma qualidade adquirida, apesar de não ter qualquer dúvida que essa é uma qualidade que pode ser adquirida e aperfeiçoada constantemente.
            As pessoas gente fina têm facilidade em nos transmitir entusiasmo, motivação e bem estar, isso por si só já as torna especiais, visto que essas são preciosidades muito escassas nos dias atuais. Mas, para falar o mínimo dessas pessoas é preciso ir além, talvez tão além que somente um gente fina poderia descrever e, neste aspecto não sou qualificado para fazê-lo, mas me atrevo a imaginar o tamanho do esforço que estes indivíduos fizeram para alcançar esse nível de comportamento, pois não deve ser somente dom divino. Ser gente fina em alguns momentos, dias, ou messes é algo possível para qualquer um, mas o tempo todo, sete dias por semana é algo realmente para poucos.
            Sei que para alcançar uma meta, transpor um obstáculo é preciso persistência, determinação e muito exercício. Quando o ideal ainda esta longe de ser alcançado é fundamental praticar com mais intensidade, mesmo que por apenas algumas horas por dia, pois é através da repetição que se aperfeiçoa a rotina e se incorpora um habito. Este por sua vez, é o principio dos atletas de ponta e dos vencedores que pode ser sintetizado pela seguinte frase: sem dedicação não há vitória.
            Desenvolver atitudes mais positivas é o alicerce para enfrentar os novos tempos, nos quais, não haverá espaço para negativismos de qualquer natureza. Precisamos nos preparar para os novos tempos de mais alegria, prosperidade e paz, onde a solidariedade e o amor ditem o caminho a percorrer. É neste espírito que os verdadeiros gente fina vivem, pois já compreenderam e por isso se prepararam para viver com mais harmonia entre todos os seres vivos. Estas pessoas captaram, talvez até de forma um pouco inconsciente, que a essência humana é de harmonia, paz e tranqüilidade e os eventuais desequilíbrios são apenas exercícios para a evolução. No novo mundo que se aproxima e, por favor, não entendam isso como uma profecia, mas apenas uma constatação de que a vida evolui e, portanto algo de novo virá. E por ser uma pessoa que acredita na justiça divina, tenho absoluta convicção de que basta sermos merecedores que uma vida nova, melhor e mais feliz se abrirá a nossa frente.
            Exercitando o talvez, me permito associar a música tempos modernos do Lulu Santoscomo uma mensagem para que cada um possa se permitir a mudar, a deixar-se levar pelo amor, pela paixão de viver e descobrir que somos todos um só. Tudo o que fazemos repercute no universo. O amor se liga ao amor, a inveja se liga na inveja e assim vai se propagando conforme escolhermos qual a freqüência que queremos nos sintonizar, qual energia captar, enfim, tudo isso é uma opção importante que deve ser feita, mas antes é preciso definir o que realmente se quer, para então podermos direcionar a antena e os esforços na direção certa.
Gente fina, tempos modernos e evolução são questões ligadas, embora difíceis de definir, mas é fundamental não associá-las a desesperança e negatividades para não repetirmos uma triste canção, cuja melodia além de duvidosa da sinais de estar nos últimos acordes. Aprenda a dizer mais sim do que não, espontaneamente, e descubra a alegria de um gente fina. Boa semana.

Pauletto J A

criado por Jair Antonio Pauletto    19:35 — Arquivado em: Artigos, Crônicas

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